Política Atualizado em 27/12/2015, 00:01
LUIZ GERALDO MAZZA
Um dos aspectos mais negativos da política paranaense é o decorrente dessa acomodação em torno de rituais de cordialidade que mais mascaram a realidade e ocultam os conflitos e atritos, tão necessários ao convívio e à evolução. Essa paz dos cemitérios só não é vivida em governos intensos, que façam obras e provoquem discussões. Como as geradas pelas decisões de Munhoz da Rocha em fazer das obras do Centenário, em 1953, uma prioridade para consolidar Curitiba como a capital de todos os paranaenses, num momento em que não eram poucas as sugestões geopolíticas em levar, no exemplo de Brasília, a sediá-la em Manoel Ribas ou Pitanga ou ainda em Campo Mourão.
Sinalizava, ainda, com o asfalto, aquele tempo importado e aqui processado, entre Londrina-Cambé e Ibiporã, enquanto era completada a sub-base da que seria a Rodovia do Café pela atuação do engenheiro e escritor Luis Carlos Tourinho, que tocava o Departamento de Estradas de Rodagem.
A esse tempo, além do debate geopolítico da capital, havia a reação autonomista dos pioneiros do café, expressa na ideia do Estado do Paranapanema. O polo dinâmico do café seria a base dessa unidade e sobre o Sul, isso é a parte tradicional já enfrentando a tese do Estado do Iguaçu, pegando um naco de Santa Catarina, seria o "Paranapamonha", uma anedota provocativa.
Numa ordem dinâmica, como a dos governos Ney Braga e Paulo Pimentel, o desencadeamento dos feitos em hidrelétricas, linhas de transmissão, telecomunicações e sobretudo estradas (dentre elas a ferrovia Central do Paraná) suscitava só alternativas desenvolvimentistas, como a de saber qual a opção viária entre Maringá e Campo Mourão ou Umuarama. Não era fácil, nesse caso específico, diante do que representava o potencial dessas regiões.
Hoje o Paraná é mais integrado, posto que visíveis os desníveis regionais ainda recentemente enfocados nesta FOLHA pelo ranking do PIB per capita, em que Londrina perde densidade diante de municípios da Região Metropolitana, e em função também do eixo industrial Curitiba-Ponta Grossa, por suas incontornáveis vantagens logísticas.
Uma coisa é discutir fatores locacionais no desenvolvimento e outra um atrito, talvez não passe de um curto-circuito, como esse havido entre o secretário Mauro Ricardo Costa e o presidente do TJ, Paulo Vasconcellos, sobre dispêndios públicos. Em que pese o tom nada diplomático do principal homem do estafe de Beto Richa, extravasando algo que a tecnocracia repudia no excesso de confortos de alguns em meio ao sacrifício de outros. Claro que o governador não tem pegada para esse tipo de debate por ser acomodado e conciliador. Quando o Judiciário lançou mão do "auxílio moradia" para concretamente aumentar salários defasados, não se viu nem um chio, afora a reação de alguns críticos, o que seria impensável se o governante fosse Roberto Requião. Ele chutaria de bate-pronto e, mesmo que configurasse mais uma bravata, daria a sensação de que o governo tinha vida e estava ligado, atento, e capaz, portanto, de gerar, mesmo que falsas, lições comportamentais. A gravidade da situação fiscal do Paraná não está apenas na crise visível e no rebaixamento das notas das agências de risco, volta e meia tapeadas com jogadas de marketing, mas na percepção, por via técnica, que é a do secretário da Fazenda, que teremos dificuldades seríssimas para pagar as próximas folhas de pagamento com um reajuste próximo de 10%. A folha funcional está hoje em R$ 1,4 bi e supera logo os R$ 1,5 bi. Governo retém progressões e promoções escudado em decretos leoninos de economia de guerra. Não se enfrenta um problema desse porte com a velha pose dos nossos dirigentes, ciosos de que nada de ruim se dará, e antes que a calamidade aflore não deixa de ser saudável o alertamento que jamais seria feito pelo governador. Para as nossas dimensões é tão ciclópico quanto o aquecimento global.





