LUIZ GERALDO MAZZA
A crise como conselheira
Numa das suas obras, o teólogo Leonardo Boff faz reflexões sobre a crise e se refere ao crisol, o fundidor de metais, como uma redução de processo e uma perspectiva, nascida desse encontro de semântica e filologia, tão caros aos filósofos. Muitos países se reergueram na crise, alguns para a arrogância imperial como a Alemanha, pós-humilhação da 1ª Guerra, outros para a recuperação como os Estados Unidos depois da recessão de 1929 e quebra da Bolsa.
O fato é que um dos clichês constantemente levantados sobre o tema a referência a saídas acaba ganhando um tom inevitavelmente salvacionista como se aureolado pela catarse religiosa. E estamos depois das seguidas baixas de nota das agências de risco numa situação que até o humor escapista se torna inconveniente como a piada de que o Brasil tem que procurar um banco tal qual os existentes especializados em atender "negativados".
Afloram as contradições mais brutais nas manifestações pró-Dilma e contra o impeachment mas furiosamente indispostas com o ajuste fiscal, postura essa centrada nos arquétipos comuns avessos à austeridade e a figura do ministro da Fazenda. Trata-se mais de um cacoete do que de uma posição ideológica, pois a margem de manobra do país é precaríssima e falar hoje em retomada do crédito para estimular o consumo, como o timoneiro Lula insistia em pregar, soa herético, se é que não há algo de erótico na postura da maioria da população condenada à perda de renda e do emprego.
O Brasil passou por algumas dessas situações como na 2ª Guerra Mundial em que se viu obrigado a política rígida de racionamento, algo como se dá com a água em São Paulo, na elementar compra do pãozinho que sofria com o desabastecimento do trigo e que se valia logicamente de sucedâneos como milho e centeio.
Sem milagre
Foi nessa época que um cidadão de São Mateus do Sul saiu de lá direto ao Palácio São Francisco, então sede do governo, para relatar a boa nova: seu carro foi abastecido de gasolina, refinada artesanalmente, do xisto pirobetuminoso da região numa época em que predominava o gasogênio. O governador de então, na verdade um interventor escolhido pessoalmente por Getúlio Vargas, o ponta-grossense Manoel Ribas, viu naquele episódio algo como a metáfora do Leonardo Boff quando se referiu ao crisol.
Esse fato histórico serviu como lastro quando o Paraná, prejudicado pela União pela localização da usina experimental do xisto em Tremembé, São Paulo, opção política e não técnica, já que os pontos mais adequados para instalá-la, ao longo da formação geológica Rio Negro, ficavam em nosso Estado. As lutas pela sediação da usina experimental e depois a operação em escala mostraram que quando essa batalha foi desferida havia quadros intelectuais e técnicos, alguns até refinados como se tratava do alemão Weber, que atuava no Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas nos anos 50 e 60 e comandava justamente o setor de combustíveis. Quando as geadas se tornaram mais frequentes botando em risco a cafeicultura assisti a numerosas experiências com nebulizadores, usados na guerra, para proteger a cultura. Num tempo de crise como o que atravessamos teríamos, como se deu naqueles anos, uma retaguarda técnica disponível nos quadros de governo? Esse IBPT, que se dividia entre a pesquisa pura e aplicada, e se mostrava na diversidade dos seus quadros acima do potencial da Universidade Federal, era capaz de dar respostas em vários campos ao ponto de inúmeros dos seus ramos serem representativos de delegações federais em microbiologia, águas minerais (crenologia), combustíveis, geologia. O Tecpar, com visão mais pragmática, é hoje o seu sucedâneo, mas dificilmente teremos, como se deu na gripe asiática, a mobilização que levou seus quadros, sob o comando de Astolpho de Souza, à produção da vacina, depois de contatos com instituições brasileiras, e a consequente vacinação. O fato é que tínhamos mais quadros e instituições do que agora para defender os interesses permanentes do Paraná.
Folclore
O prêmio Esso de jornalismo surgiu coincidentemente com uma campanha desenvolvida pelo IBPT contra uma patologia ainda comum em nossos dias: falsificação do combustível. Lembro que a fraude consistia em misturar querosene ou diesel na gasolina, que tinham preços diferenciados.
À época os técnicos do instituto criaram um tal de fluorógrafo que registrava indicadores de mistura e dava origem a flagrante pela polícia de economia popular. Aquele tempo havia inclusive júri de crimes desse tipo, um absurdo que levava açougueiros porque punham o dedo na balança às margens da lei.





