Uma cultura encalacrada
A luta feminista, em que pese todo empenho civilizador e normas como a da Lei Maria da Penha, esbarra com questionamentos incontornáveis de natureza cultural. Ainda agora em Santo Antônio do Sudoeste uma casa de espetáculos (bar e lugar de encontros) promoveu "rodízio de mulheres" a R$ 200 o participante. Feministas foram ao Ministério Público e pediram providências e houve um termo de ajuste de conduta com o dono do estabelecimento sem que houvesse a interdição da casa pelo abuso da exploração sexual mercantilizada.
Condicionantes culturais são ainda muito fortes para que se contenha abusos dessa ordem e sinais de resistência aparecem muito mais em centros urbanos cosmopolitas do que nos módulos de menor expressão. Nesse caso é indispensável que, em nome da civilidade instituições como o Ministério Público, a polícia judiciária e a Justiça ajam com o máximo rigor e fujam a acomodações, neste caso especialmente, inaceitáveis. É um tema para a mais profunda reflexão.

Sem surpresa
Não há mais surpresa em situações como as vividas ontem no cerco à residência do presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha, pela Polícia Federal em Brasília e também aqui no Paraná na prisão do Juliano Borghetti, irmão da vice-governadora Cida Borghetti. Vivemos um outro tempo: a coação dentro da lei como já se viu nacionalmente nas prisões de políticos e empresários na Lava Jato e de certa forma, embora com o aprofundamento insuficiente das operações, na Publicano e na Quadro Negro de gente da hierarquia funcional, parentes e amigos do governador.
O governador dava ontem pela manhã entrevista na CBN Curitiba quando foi surpreendido pela notícia da prisão de Juliano, mas nada o alterou na afirmação de que essas apurações devam continuar respeitando o amplo direito de defesa e fez referência ainda ao delator premiado da Publicano, que está há trinta anos na Receita Estadual, e que sempre houve, conforme o seu testemunho, a prática da corrupção na área. Esse réu é aquele que abriu mão de duas fazendas no valor de R$ 20 milhões para reduzir o peso de suas penas.

Saco sem fundo
Segundo o secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, todo investimento pesado nas universidades estaduais é para salários, dominantemente. Governo não tem firmeza na resistência a demandas como a que se dá agora em torno de R$ 21 milhões no hospital de Londrina e assim é também com o pessoal do ensino médio. Ainda agora todos os funcionários em janeiro, conforme anunciou Beto Richa, recebem mais 10% de reajuste. A folha funcional já está em quase R$ 1,4 bi, vai a mais de R$ 1,5 bi. E o professorado impediu, o que é um absurdo, que o Portal da Transparência revelasse o quanto ganham. É deserção pura, nada mais, do Executivo.

Postura mini e máxi
Pegou bem no meio político a postura de Gustavo Fruet, junto com outros prefeitos de capitais, defendendo o mandato da presidente Dilma e abertamente contra o impeachment., Essa é uma postura de estadista, já a briga contra a privada do Sindimoc no Sítio Cercado é coisa de nanismo cívico-intelectual, um desplante. Parece arte do setor universitário sertanejo que não se confunde com o sertanejo universitário, um estilo de música.

Ajuste
Não foram poucos ouvintes bronqueados com o otimismo do governador, dizendo que o Paraná é o melhor desempenho fiscal do país e que perguntavam se ele estava falando dos Emirados Árabes. Como ontem o presidente da Assembleia, Ademar Traiano, anunciou um cheque de R$ 250 milhões para o governo, ele bem que podia pagar ao menos os 4.784 servidores de cinco carreiras da Polícia Civil que aguardam desde maio o acesso às progressões a que têm direito.

Folclore
Depois da ideia do apocalipse no Sudoeste com as enxurradas e a tragédia de Manfrinópolis, só faltava para colocar algo digno de Sodoma e Gomorra no cenário o "rodízio de mulheres" a duzentão num estabelecimento comercial de Santo Antônio do Sudoeste, também vítima das calamidades. O "espeto corrido", por seu traço mercantil, é o contraponto do mundo periférico às pregações feministas dos centros urbanos e cosmopolitas. Atentado à dignidade com essa contundência é difícil encontrar. Ministério Público deveria fechar liminarmente a casa.

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