Sordidez estampada
Tudo é sórdido no processo do impeachment desde a chantagem original ao oportunista reencontro do PMDB com sua origem encabulada, o PSDB, esses, sim, farinha do mesmo saco. A forma como se conduz o vice Michel Temer é expressão da axiologia da política brasileira: o matreirismo da dissimulação e o ridículo também, embora inevitável nos nossos padrões, do esforço da presidente para cooptá-lo como se entre eles houvesse um amálgama de sentido sacral.
Inevitável na história brasileira a desconfiança que cerca, especialmente nos momentos de crise, a figura do vice. Quando a pressão da República do Galeão, montada pelo atentado a Carlos Lacerda e no qual morreu o major Rubens Vaz, da Aeronáutica, e que lhe dava cobertura, percebeu-se que João Café Filho, o vice, era logo cercado pelos que tentavam derrubar Vargas na área civil. O ato de violência da guarda pessoal do presidente, que já era hostilizado por outras razões inclusive a sua opção pelo nacionalismo num momento de forte pressão internacional (apoiada por quase todos os jornais brasileiros, à exceção de "Última Hora" que fora criado justamente para esse fim). O vice era figura popularíssima, tido como agnóstico e, por isso, alvo da Liga Eleitoral Católica que levava a mesma rejeição ao cabeça de chapa.
Com a consumação do suicídio de Getúlio, criou-se um cerco em torno de Café Filho que tinha entre seus mais íntimos um dos maiores liberais do país, o paranaense Munhoz da Rocha que agraciou primeiro com o Ministério da Saúde e depois colocando-o no da Agricultura até com a hipótese de transformá-lo em vice da nova frente governista.
Na queda de Collor a ascensão de Itamar Franco que facilitaria o voo de Fernando Henrique no Ministério e as pré-condições do Plano Real que estabilizaria a economia do Brasil, um peso preponderante de afinidades e aproximações.
O divisor de águas do passado não existe mais no PMDB, a separação ideológica entre autênticos e fisiologistas, pois hoje a prática é de adesão ao mais descarado pragmatismo no racha ministerial. O PMDB agregou-se a FHC nos dois períodos e tentou a presidência sem fôlego e densidade eleitoral para conquistá-la como se viu seguidamente com Ulysses Guimarães e Quércia. Agora, ao perceber a força do lulopetismo, nele se agregou numa coligação com mais aspecto de uma comandita do que de um processo efetivamente de mudança, o constante enfim do suposto objetivo ideológico de remir os excluídos ou de botar um prato de comida na mesa do pobre que é, segundo Lula, o horror da elite. É uma pena que esse populismo, que desgraça a Argentina e o nosso país, tenha aqui ainda sucesso. Mas se trata de coisa histórica: despojado o estoicismo de Vargas é insuportável a arenga do providencialismo salvador na frase: "Esse povo de quem fui escravo não será mais escravo de ninguém". Continuamos escravos - e não sei até quando - desse populismo de raiz que tanto nos degrada a ponto haver gente empolgada com o mimético "socialismo do século vinte"; a calhordice bolivariana.

Depressão
Empresários paranaense homenageados como "visionários" - Joel Malucelli, Orovisto Guimarães e Miguel Krigsner - num momento de recessão encaminhada para a depressão é o destaque do talento e da performance que fogem à rotina.
Riscos inerentes à quadra nacional, ainda mais quando vinculada à mundial, podem interromper tais feitos ontem celebrados. Lembro que neste jornal e nesta coluna destaquei como exemplo incomum na Avenida Luis Xavier o fato de duas edificações lá desenvolvidas negarem o ceticismo: numa esquina a reforma do Palácio Avenida, QG do Bamerindus e hoje do HSBC em mutação e na outra a Galeria da Hermes Macedo, maior varejista da América Latina, na transformação, respeitando a arte decô na reocupação do primeiro arranha-céu da capital, o Edifício Garcez.
Homenageados de ontem, como de hoje, são expressões da atualidade com visão do Brasil e do mundo. Um sinal de otimismo em meio à crise sempre alavanca.

Folclore
Antes era assim: o ladrão chegava e dava o alerta: "A bolsa ou a vida". Agora, com a vulgarização da bolsas na transferência direta de rendas e a oferta habitacional do "Minha Casa, Minha Vida" vivemos o auge das políticas assistenciais. Ricardo Barros, relator do orçamento, quer cortar, por imperiosidade fiscal, bilhões do Bolsa Família e com a máxima frieza, o que arrepia a classe habituada à vassalagem ao populismo. Pois, agora, em Araucária, apuraram que um membro do Conselho Tutelar da cidade era beneficiário do Bolsa Família, algo que ocorre com mais frequência do que se imagina. Esclareça-se para adequar-se à semântica lulopetista que entronizou o termo "presidenta" que a componente do Conselho Tutelar era uma mulher e, portanto, membra e não membro.

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