Bravataria desenfreada

A notificação aos trabalhadores do sistema de transportes de que as empresas não têm numerário para pagar o décimo terceiro salário arrepiou o ambiente e o sindicato já estuda a retomada daquilo que fez recentemente - a greve preventiva contra uma operadora de Araucária. Ainda bem que o sindicato limitou a parede a uma infratora e não a generalizou como um certo setor sindical se dispunha a adotar.
Junto com a notícia de que o abono de Natal não sairá houve outra: a de que o cartel pretende, ao longo do ano, demitir nada menos do que 2 mil trabalhadores. Ora tudo isso tem o jeito de uma chantagem para forçar, o quanto antes, a fixação da tal tarifa técnica e com ela fundamentar o novo valor das passagens, causa alegada pelo "vermelho" das empresas. Clima terrível, mas apropriado a um Natal e fim de ano que se prenunciam melancólicos, para um xeque-mate. E fazem isso porque o poder concedente, prefeitura e Urbs, não tem pegada, não tem "punch" para esse tipo de enfrentamento, haja vista a forma desastrada com que levou à ruptura da integração metropolitana em cima de alguns poucos recursos do subsídio concedido pelo governo estadual.
Não soube reagir à badalada auditagem do Tribunal de Contas que determinou a retirada de itens da planilha e com baixa consequente das tarifas. Perdeu condição para o diálogo e não praticou nenhum ato de ruptura ante o oligopólio, apesar desse reforço do TC e da existência do relatório da CPI municipal, que poderia levar a alguma forma de devassa no sistema. Há inclusive um pleito de movimento social junto ao Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, para que se faça a caracterização no sistema de um cartel.

Desigualdades

Uma coisa é o oligopólio, o conjunto de empresas que detém o poder concedido, outra a sua variada composição de organizações de porte diferente e onde as mais fortes, aquelas que detém além das frotas, as garagens e as centrais de compras, não sofrem sequer as descompensações com a exploração obrigatórias de linhas de menor rentabilidade. As vantagens da economia de escala na aquisição de insumos (diesel, lubrificantes), peças e acessórios - escoradas na central de compras - as tornam privilegiadas e ficam distantes da situação das mais fracas, muitas das quais têm tido as dificuldades notórias para pagar sequer os tais vales que chegam a render greves.
Visível nessa anatomia que, na medida em que se apertam os parafusos dos controles, as maiores, que são poucas, dissimulam expressar o drama e a angústia das menores como se já não bastasse a relação pactual que há entre o poder concedente e as autorizadas e mais ainda o sindicato laboral de mais de meio século ao longo do qual tivemos greves que mais pareciam locaute, ante o predomínio do interesse empresarial e também situações dramáticas como o abandono do serviço e das linhas como se deu nas gestões de Ney Braga (1954-1957) e a de Iberê de Mattos em seguida. Nessa até o governador Moisés Lupion, que tinha correligionários no sistema como Erondi Silvério e um genro do chefe de Polícia, Alfredo Pinheiro Júnior, baixou um decreto encampando o transporte e o atribuindo a um órgão, o DSTC, do Departamento de Estradas de Rodagem, felizmente revertido pela Justiça. Desses conflitos se chegou a um tipo de convívio que subsistiu e que agora dá sinais de esgotamento com os sinais de quebra de algumas operadoras e o baixo poder de intervenção da Urbs para botar um pouco de ordem no caos.

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