Embrião da anomia
A greve dos caminhoneiros é uma evidência da fragmentação excessiva dos movimentos políticos e reivindicatórios. Entidades representativas negam apoio e até condenam a iniciativa, mas sem força para conter as atomizadas dissidências. Isso já vem ocorrendo no microuniverso das demandas sindicais e no Rio de Janeiro o pretório trabalhista admitiu como parte legítima a representação da oposição que pleiteava maior percentual de reajuste que o grupo oficial em demanda de motoristas e cobradores do transporte coletivo.
Quando essa atomização, em nome de uma radicalização do conceito de democracia e da tão batida participação, se dá de forma frequente e chancelada pelo Judiciário se percebe que é difícil praticar a justiça sem transbordamentos e arbitrariedades.
Aliás, o choque entre Executivo e Legislativo no Brasil se processa em cima de sórdida barganha no jogo entre o impeachment da presidente e a cassação de Eduardo Cunha e tudo é feito com requintes barrocos num dos momentos mais caricaturais da história brasileira. Felizmente, o que também não é regra, o Judiciário se sai um pouco melhor nessa quadra especialmente em função do andamento da Lava Jato, todavia, de qualquer maneira, isso sinaliza um avanço em direção à anomia, expressa na ausência de ditames institucionais seguros.
Bloqueios que se deram ontem (aqui até o início da tarde havia dez deles com tendência a aumentar o proselitismo tal a variedade de motivações), entre as quais a de facilitar o impedimento de Dilma Rousseff, o que colocava a situação numa perspectiva anarcosindical. Essa fragmentação autoriza a mediação de múltiplos agentes e torna inviável o diálogo por ter a representatividade legal perdido o sentido essencial da sua presença.
Não é um momento bom até porque o governo perdeu - e isso se acentua cada vez mais - a sua expressão de representar a maioria e com isso merecer algum nível de obediência.

Agressão costumeira
O bloqueio de estradas obviamente estava descrito como agressão à segurança nacional, mas o que se vê (e isso há muito tempo) é o recurso primário desse tipo de iniciativa para expressar qualquer demanda contra acidentes, construção de passarelas, greves e manifestações até de indígenas como se deu ainda recentemente em favor de demarcação de terras. Como manda o receituário democrático esses conflitos são enfrentados simplesmente com diálogo quando é possível, porém de um bloqueio indiscriminado só se pode esperar o caos. Não custa lembrar que um dos lances da derrubada de Salvador Alende no Chile se deu em função de ação mobilizadora nas estradas por transportadoras, e o que tem rachado essas ações no Brasil é justamente a falta de unidade de pauta e o excesso de grupos que se travestem de legais pela força.

Confessionalismo
O vereador José Carlos Chicarelli apresentou projeto que manda incluir em todas as placas inaugurais ou que registram eventos ou nomes a expressão "Deus seja louvado". O que soaria antinômico no caso de um homenageado materialista ou agnóstico. Nossa Câmara é uma siderurgia confessional: nela chove água benta.

Barragens
Eventos trágicos com as represas de mineradoras em Mariana mostram que, a despeito de toda a tecnologia acumulada, vez por outra temos ocorrências fora de controle como a de duas usinas hidrelétricas, entre as quais a de Euclides da Cunha em São Paulo, levadas de roldão como ainda aqui mesmo no Paraná houve casos de desabamento tectônico por pressão das águas em Salto Capivara na bacia do Paranapanema e na Região Metropolitana de Curitiba na Usina Capivari-Cachoeira. E isso só foi conhecido em função de um relatório sobre médias e grandes barragens de caráter internacional, pois a ocorrência do Capivari poderia ter sido atribuída a explosões da fábrica Britanite, que produz dinamite nas proximidades, ou no fenômeno de cabeças d'água, comum nos rios da Serra do Mar e marcado por estrondos.

Folclore
O Plano Diretor de Curitiba, aprovado na Câmara, vai a sanção do prefeito que precisa usar o peso da massa crítica disponível para torná-lo eficaz. Há disposições inúteis, como a que proíbe o revesamento de placas ou a adoção do pedágio, hipóteses que a longo prazo, como é o sentido de matéria codificada, não são desprezíveis, como aliás poderia ser feito, tal qual ocorre em São Paulo, com a regulação do espaço aéreo e do estabelecimento de helipontos e heliportos e quem sabe até do emprego de asas deltas para nossos executivos mais moderninhos. Enfim, assuntos de qualquer forma pertinentes à mobilidade, cada vez mais complicada, embora a badalação de que somos um modelo de intervenção urbana dos melhores do mundo. Por sinal que o calçadão é copiado de Curitiba há séculos na Europa e o afirmamos como coisa nossa com a maior naturalidade.

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