Sublime barganha
Chegamos ao paroxismo moral em matéria política no acordo entre as forças políticas do governo e o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, num jogo solerte de compensações: a blindagem de um em troca da proteção ao outro, isso é breca-se o procedimento judicial em troca da leniência no político do impedimento. É o auge da degradação política, feita em ritmo de balé e minueto, para dissimular um ajuste de malandros de parque.
Falta apenas, como refletia o filósofo Mané Garrincha na Copa do Mundo, combinar tudo isso com a polícia judiciária, o Ministério Público e a Justiça. Informes da Procuradoria da Suíça, que ora alimentam a linha de acusações contra Cunha, não podem ter a destinação anedótica do paradigma de Maluf e revelam movimentação bancária que envolve o denunciado e familiares.
Essa manipulação descarada de valores institucionais, que alicerçam o Estado Democrático de Direito, é bem a medida de degradação da atividade política. É evidente que os pragmáticos se valerão de passagens históricas para justificar o arranjo: o pacto de não agressão na 2ª Guerra Mundial entre Alemanha e União Soviética, o acerto Ribentrop-Molotov, que não era para valer; o encontro entre Prestes e Getúlio Vargas apesar deste ter enviado Olga Benário pelas mãos de Filinto Muller a um campo de concentração, valendo-se de casos de extremado realismo ditado por circunstâncias muito específicas.
A atividade política, indispensável ao processo civilizatório, ganha aí a dimensão de uma cloaca máxima como a do esgoto dos romanos.

Vigilância
Quando da decisão da Comec de contratar os serviços da Metrocard, os meios de comunicação se referiram aos problemas da empresa e de suas vinculações em episódios em Brasília. Não se discutia a sua competência técnica nas funções que exerce, mas suas relações negociais e de vinculação política. A advertência do Procon, encampada pela Comec, de proibir a imposição de venda no mínimo de dez cartões é o caminho institucional – o exercício permanente da fiscalização administrativa, o óbvio que seguidamente deixamos de praticar, causa afinal das verdadeiras capitanias donatárias que se formaram na capital nos serviços delegados do transporte e também no da engenharia de sistema como o Instituto Curitiba de Informática, só agora, sob Gustavo Fruet, chamado às falas.

Histeria
É normal o impulso corporativista por parte de sindicatos e associações em defesa do delegado Rubens Recalcatti, preso juntamente com oito agentes sob acusação da morte de Ricardo Geffrer e em ação de alegada represália. Não justifica, no entanto, o tom emocional de manifestações de solidariedade com o apelo a motes de que se pune os que trabalham contra o crime como se não houvesse uma preocupação nacional com casos comuníssimos de execução.
Acusações podem, com o andamento das investigações, ser derrubadas como se deu com a feita contra o médico, até hoje preso, como suposto autor da morte da namorada Renata Muggiati, com a perícia do IML mostrando que a vítima antes da queda não havia sido asfixiada, versão primeira da polícia. Aliás, se há um setor que precisa de autonomia é o dos Institutos Médico-Legais para que fundamentos de ordem técnica e científica não sejam maculados por deficiências administrativas e burocráticas ou de inspiração política.

Balanço
Cresce a greve bancária por aqui: em dez dias há 73% de adesão com 290 agências fechadas. Não faz tempo um dirigente do Itaú, em entrevista à imprensa nacional, falou do plano da organização de avanços tecnológicos em dispensar 10 mil bancários como se estivesse espremendo um cravo na ponta do nariz. E isso foi dito quando já tínhamos as primeiras arregimentações para a campanha salarial que todo ano é assim: tensa e controversa.

Folclore
Sou chamado pelo chefe da Casa Civil, de Munhoz da Rocha, o professor Milton Carneiro, ao andar superior do Palácio São Francisco, que era em 1953 sede do governo paranaense. No alto da escadaria, o Gregório Fortunado, o homem da guarda pessoal de Getúlio Vargas, que havia dormido nas instalações, não me deixa passar e me dá um leve empurrão em que quase sofro uma queda como à das vítimas da Renata Sorrah na novela da Globo.

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