Política Atualizado em 29/08/2015, 23:00
Luiz Geraldo Mazza
Há um momento na história do socialismo e das lutas sociais em que obreiros reagem contra a tecnologia por vê-la como opressiva: por exemplo o ludismo foi um desses lances dos século 17/18 em que a liderança entendeu relevante quebrar os teares mais avançados porque reduziriam o emprego da mão de obra. Aliás boa parte da pregação de Robert Owen na fundamentação cooperativista se deu em cima de situações controversas como essa. O lendário Nedd Ludd criou os "ludders" como aqueles que em abril de 1812, em York, invadiram e destruíram uma fábrica, tiveram 64 deles julgados, 13 condenados à morte e dois deles à deportação, e esse martírio, como os punidos pelo 1º de Maio em Chicago, deu a contribuição importante para chegar ao Manifesto Comunista de Marx e Engels, uma das ilusões mais fortes da história.
Há uma referência a uma greve contra avanços tecnológicos em jornais e isso nos Estados Unidos da América do Norte e em São Paulo, no desdobramento do sindicalismo lulista, tivemos o caso da operação "Cambalacho" comandada por Jair Menegheli e que na montadora entregava carros com defeitos como pressão ao patronato, fato que também espanta pelo primitivismo. E agora num setor dos mais atrasados da sociedade brasileira, o dos sem terra, vemos novas manifestações contra a ciência e a tecnologia sob o fundamento de que elas os oprimem.
Temos nas invasões de Figueira e agora a de Castro a reprise desse discurso já anteriormente feito também pela chamada Via Campesina com a destruição de laboratórios e mudas sob o argumento de que pelo reflorestamento iriam construir "desertos verdes" como se a função agrícola fosse apenas a de produzir alimentos e não a de também gerar matérias-primas e insumos para outros campos industriais. Ocupam as áreas e propõem que sejam utilizadas para fins agroecológicos, quase sempre com a marca primária da destruição como fizeram na antiga fazenda Mitacoré do Bamerindus, no oeste do Paraná, excepcional centro de pesquisas, e também na maior fazenda de soja do Brasil, a do banco Itamarati, na qual não sabiam o que fazer com equipamentos de irrigação e os detonaram.
O MST é muito protegido especialmente pela Igreja e é sustentado direta e indiretamente pelo governo federal por meio das ONGs e jamais avaliada é a sua resposta nos assentamentos, a maioria dos quais de baixo desempenho, em que pese o esforço ministerial para mantê-los. Na verdade é uma ação política e voltada para um objetivo que tende, cada vez mais, a perder o bonde da história, a reforma agrária, como acentuou o homem de esquerda Inácio Rangel, ao constatar que a chegada do capitalismo no campo e com a remoção dos sedimentos coloniais o agronegócio prosperaria e ampliaria os níveis de igualdade e ascensão dos trabalhadores justamente pelo acesso também da agricultura familiar a avanços tecnológicos e de ganhos em produtividade, inclusive com apoio em organismos de extensão rural e, sobretudo, da estatal Embrapa, que acaba de lançar a sua semente de soja transgênica, rompendo, portanto, com a tal dependência tecnológica da Monsanto.
Um dos atos de João Goulart, que mais o indispôs com o patronato, foi o de ter feito o reconhecimento de milhares de sindicatos de trabalhadores rurais de uma só pancada. Algo tardio como se deu com a abolição da escravatura, que deu margem a uma resistência pétrea, mas enunciador de um novo cenário nas relações sociais e capaz de abrir caminho para o entendimento nas malhas da justiça do trabalho. É verdade que surpreendentemente volta e meia se detectam casos de trabalho escravo no País, o que mostra a resistência de setores mais vulneráveis como o do reflorestamento e das carvoarias ao mundo moderno.
Quanto mais primitivo o tipo de organização -e isso coexiste na vida moderna- maior a condicionante das relações sociais. No passado tivemos a orelha de jegue que era a conta do armazém no qual os trabalhadores faziam suas compras sempre devedoras e mais remotamente até o "direito de pernada", sedimento do "jus primae nocte", o direito à primeira noite concedido ao patrão da fazenda no casamento de uma colona.





