Balanço das barricadas

O Brasil está de tal forma acostumado com manifestações coletivas como as três anteriores anti-Dilma e a de quinta-feira a favor que parece vacinado contra o terror que às vezes está subjacente nos seus propósitos. Um dos dísticos bem utilizados é o do ''golpe'' que para assim ser chamado depende do lado de quem o sofre. Quando se tentou substituir Café Filho (vice de Getúlio Vargas) com o deputado Carlos Luz em 1955, os milicos intervieram em nome da legalidade que garantia a posse de Juscelino, o célebre retorno aos poderes constitucionais vigentes, para os governistas era golpe, tanto que alguns deles, em protesto, andaram de navio da Marinha pela Guanabara, dentre eles os ministros Munhoz da Rocha e seu cunhado, Aramis Athaide, aqui da terra, liberais ao lado do radical almirante Pena Botto.
Um mandado de segurança foi julgado e quem o relatou foi o maior penalista deste país, Nelson Hungria, que não pode disfarçar a perplexidade com os tanques na rua no umbral dos palácios.
Com a renúncia de Jânio Quadros houve o veto ao vice João Goulart (foi o último do Brasil a ser eleito diretamente para o posto, já que agora a dupla é automática) e aí Brizola se transformou na liderança maior da resistência como governador gaúcho, entrincheirado no Palácio Piratini. Com a atuação do 3º Exército, sob o general Machado Lopes, que temendo Guerra Civil, comandou a deposição das armas, e a restrição negociada do parlamentarismo botou-se a casa em ordem por quase três anos para eclodir de forma hegemônica, graças aos movimentos da direita com a Marcha com Deus e a Família pela Liberdade, com apoio estratégico norte-americano, que derrotaram as barricadas das reformas de base, entre as quais a maior, o equívoco da moda, a agrária, que agora dá sinal de vida e do seu obscurantismo no norte do Paraná.

Império da lei

Apesar da baderna nas instituições com o protagonismo exagerado de Cunha na Câmara Federal e de Calheiros no Senado, o que é altamente perturbador, até aqui o que funcionou mesmo foi o Judiciário e não há sensibilidade em seus integrantes para qualquer ruptura do ordenamento institucional com a saída de Dilma Rousseff como querem os passionais, desconsiderando que a crise persiste com ela dentro ou fora do governo. Estamos, desde a queda de Collor, por sinal novamente envolvido, numa esteada democrática das mais duráveis, e se há poder hoje visto pela maioria esmagadora do público a preservar como o sustentáculo maior da democracia e do Estado de Direito é o Judiciário, em função justamente dos desdobramentos da Lava Jato, a expressão gigante do larvar mensalão.
Tivemos a queda de braços das manifestações e a desta semana do PT e aliados mostrou-se subnutrida como resposta aos anti-Dilma. Se as primeiras não mudaram o cenário essa do dia 20 foi mal refletida porque com um discurso seccionado, fragmentário, multifacetado - pela manutenção de Dilma, mas contra o arrocho do ajuste fiscal e também em ataque ao Eduardo Cunha- com o que se capta que se há algo impraticável para nossos políticos é qualquer tentativa de austeridade (fiscal, política ou doutrinária) olhada como hidra da direita e irmã siamesa do neoliberalismo. A austeridade, nessa visão, aumenta a pobreza e favorece os parasitas.
Aqui também, no plano estadual, temos um apelo à austeridade, roupagem que não cabe nos que detonaram o modelo de gestão financeira que tínhamos até o PMDB e depois o PSDB, encabulado da origem, assumirem o governo que submeteram a um desmanche de formigas marchadeiras. Ainda agora se apurou que o famoso decreto que fixou teto para as despesas de baixo valor vem da gestão de Lerner sob a forma de lei, o que é correto, e revogado por decreto, o que é anômalo, na gestão Roberto Requião, ainda que o setor fazendário estivesse sob o comando de um tributarista de nome nacional, Eron Arzua. Pois agora a novela se completa, ainda que sob a forma de decreto, com o revigoramento da lei original. Vale como curiosidade, mas também como obtusidade. E a decisão do Juizado Especial põe em risco o plano geral do ajuste fiscal, ainda mais se a mexida na Paranáprevidência cair na instância superior.

mockup