Política Atualizado em 15/08/2015, 23:00
Luiz Geraldo Mazza
A precipitação do clima de impeachment ameaça restabelecer o desafio à batalha das ruas, pois o governo decidiu reagir com movimentos sociais aliados. Nas campanhas eleitorais em passado distante dava-se extrema relevância a quem reunia mais público nos comícios, ainda não contaminados com o show biz das duplas sertanejas, hoje felizmente abolido. Mas era uma forma de ensaio na base do palmômetro que reproduzia tiques de combate militar aí bem alegorizados no "faz de conta".
O Tribunal de Contas da União adiou o seu parecer sobre as pedaladas fiscais, o que evita que uma decisão negativa encorpe as manifestações de hoje. As de agora têm na forma e no conteúdo as mesmas características das havidas em 1964, com as Marchas com Deus e a Família pela Liberdade, que contaram com apoios mundiais como o do padre Peyton que vinha como resposta, adequada ao clima da Guerra Fria, às mobilizações dos adeptos de Jango Goulart que pregavam reformas, inclusive a agrária e a urbana, esta fixando vantagens para quem alugasse moradia e cogitando até de expropriações, no velho receituário dessa praga de que não nos desligamos, a do populismo.
No encontro das "margaridas", no estádio Mané Garrincha, deu para perceber o grau de alinhamento das pessoas às quais se unirão a União Nacional dos Estudantes, que há muito se tornou chapa branca e perdeu o pique a serviço de uma sigla partidária, e o Movimento dos Trabalhadores sem Terra, que Lula pensou em convocar às ruas assim que seu grupo começou a perder espaço.
Apesar de intensamente divulgado e hoje com o apoio oportunista do PSDB essa manifestação não tem a vitalidade das espontâneas de 2013, mas se insere num processo de aguda participação visível em manifestações localizadas, como as de Santo Antônio da Platina e de Jacarezinho, aqui no Paraná, e que ganham por seus resultados práticos (redução dos salários de vereadores) dimensão novelesca, conquanto se definam como quixotescas.
Fixado o campo da disputa nos comícios das reformas (que reuniu pouco mais de 300 mil pessoas na Central do Brasil), as marchas das rezadeiras, nítido corte à direita, concentravam multidões de 700 mil a um milhão de pessoas e que operou como sinal para a intervenção militar. É aí que alguns brasilianistas veem algo como "revolução", a legitimar a Redentora, pela circunstância de haver um embate que ia muito além de ideologia e por isso mesmo parte da frota ianque estava nos mares de Pernambuco no aguardo dos acontecimentos.
As pessoas de bom senso sabem que a saída de Dilma Rousseff pode ser tida como um ato de descompressão, insuficiente, por si, de indicar uma saída para a crise nacional em que os vasos comunicantes da economia e da política giram em espaços conflitantes. O protagonismo dos presidentes da Câmara Federal e do Senado, ora apertando e ora afrouxando os nós do garrote vil, aprofunda a crise, na medida em que a tentação é grande para o impedimento, ainda que não se justifique política e juridicamente.
A "provocatio ad populum" é um recurso válido para nós como era claramente para os césares. Collor o subestimou quando pediu que o povo viesse às ruas para defender o seu mandato e a resposta da massa e dos caras pintadas, em particular usando o luto como traje, matou sua precária estratégia. Ridícula como o apelo idiota do presidente da CUT pedindo que o povo se pusesse em armas para defender o mandato presidencial. O fato é que estamos de novo, como em vários momentos da história brasileira, diante do mito das barricadas, tão caro aos franceses, mas que em nosso já foi demonstrado à saturação que não nos serve. O pedido de impeachment é dominante, mas isso não lhe retira a insanidade. Pode ser até que a maioria deseje isso, porém um cronograma e um ritual exigem o respeito à questão fundamental da lei e da ordem.





