Apenas um 'barraco'
No andamento das inquirições da Lava Jato, ontem pela manhã, um atrito: o delegado entendeu que a advogada da Odebrecht, Dora Cavalcanti, não poderia acompanhar o seu cliente Marcelo Odebrecht no processo por ser ela própria, uma testemunha a ser ouvida, em sequência, no caso do bilhete que mandou apagar e-mails. De estilo beligerante, como tem demonstrado em entrevistas, partiu para o ataque, afirmando que iria à OAB, a local, para o competente protesto. Como porém o presidente Juliano Breda é também advogado da OAS na Lava Jato haveria certamente um bloqueio de ordem deontológica para que expressasse qualquer condenação no plano personalíssimo. Tudo isso deve ser muito bem pesado.
De um lado, o estilo e a cultura inquisitoriais apropriadas a delegados e, de certa forma, a procuradores de Justiça; e de outro, o da liberdade ilimitada do advogado em sua missão defensiva, ainda mais quando há um clima de opinião pública de condenação a todo e qualquer agente envolvido no petrolão. Aquilo a que se apegam todos os advogados - o princípio da presunção de inocência - está em função de fatores psicossociais invertido, isso é o ceticismo e o horror com a política, de um modo geral, e os desvios da corrupção em particular, levam ao axioma de que os envolvidos estão aureolados pela presunção de culpa.
Pode não ser um sintoma de civilidade e dos rituais jurídicos, mas num momento em que o jurista Celso Bandeira de Mello diz que estar preso para os empreiteiros já é uma tortura, para quem vive no conforto há um clima para tudo. Aliás, o fato de esse tipo de empresário, o mais próximo dos governos, representativo da empreitada, estar na prisão já é uma negação do hábito da impunidade que nos define. Um radicalismo, o da justiça chegando no colarinho branco, leva a outro - o de ver nisso tudo arbítrio e ilegalidade, especialmente uma ruptura da tradição e da praxe dominantes.

De novo Aragão
A mensagem que o governador Beto Richa encaminhou anteontem ao Legislativo regulando a atuação de fiscais na prevenção de corrupção e fixando penalidades sobre ações como as que estão ocorrendo, de forma generalizada, dá para incluir em mais um caso de trapalhada digna de Renato Aragão. Mesmo que leve em conta que se trata de patologia antiga, que teria, segundo o Gaeco, surgido lá por 1984, nada a ver com George Orwel, na gestão portanto do pai, José Richa, esse ato não confere ao governador o ''distanciamento'' pretendido porque gente próxima dele está envolvida até o pescoço no evento e ainda por cima há o ''eminência parda'', o remoto parente Luiz Abi Antoun, a quem se atribui toda a articulação política dessas sórdidas manobras.
A falta de comando no governo e sobre as pessoas que o integram é a causa maior da pasmaceira, jamais vista em nossa história. De qualquer forma a parte punitiva dos infratores é positiva. Ao menos alguns dos próximos poderão sofrer sanções, mas isso não exclui as responsabilidades do governante e dos que o antecederam.

O impeachment
Para completar a burla sistemática de nossa política, tivemos o arquivamento de três pedidos de impeachment do governador, de todos o melhorzinho sem dúvida o de Requião Filho com alguma fundamentação. Ridículo de qualquer forma o pleito como se deu com Roberto Requião, quando juízes ganhavam mal e acabaram fazendo uma greve (um absurdo que condenei à época em debate nacional na CNT pelo oportunismo inclusive da OAB local em apoiá-la) seguida de um pedido de impedimento que obviamente, como agora, não foi aceito. Num momento em que tanto se fala no impeachment de Dilma Rousseff para o qual também inexiste razão consistente tentaram essas pessoas surfar na onda antigoverno e se deram mal. Juntando a mensagem imunizatória contra a corrupção fiscal e mais essa do arquivamento pelo fiel escudeiro Traiano do impedimento, dá a impressão que está em curso a agenda positiva que o gabinete de crise administra bolou. Faça-se, porém, uma pesquisa e ver-se-á que o tempo continua enfarruscado para o governo e não se vê no horizonte distante uma pálida esperança.

mockup