"Faltou a medida ética no processo de aparelhamento e que era o forte do PT antes de ser governo"



Semelhança aparente

Há quem esteja enxergando no radicalismo de posições, às vezes dentro de um mesmo jornal, em torno das questões nacionais, quase choque fratricida, do ocorrido em 1964. Àquela época, embora existisse um agrupamento até por força da Guerra Fria classificável como de oposição ao janguismo, o que de fato tinha força era o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), menos radical e comandado pelo gênio do golpe, o general Golbery do Couto e Silva. Esses do lado da direita e, é claro, apoiados por brigadas como a do CCC, Comando de Caça dos Comunistas.
Do lado do governo - que aliás teve um ministério como poucos dos vividos em república, com figuras como Evandro Lins, Hermes Lima, Celso Furtado, Santiago Dantas e o Eliezer Batista, criador da Vale do Rio Doce - como agregador doutrinário havia o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o Iseb, dirigido por Roland Corbisier. Curioso anotar entre esses nomes o de Santiago Dantas mais o de Corbisier como criaturas do integralismo, da ultradireita, e que derivaram à esquerda como também Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, um dos maiores pensadores católicos e dom Helder Câmara, o bispo vermelho.
O que tudo orquestrava era a Guerra Fria, que afinal definia os campos em razão geopolítica. Hoje não temos Guerra Fria e há um choque entre visões diferenciadas do pró e do contra o lulopetismo, nem sempre significando apego a cargos no governo. Ironicamente, João Goulart era acusado de estar implantando no Brasil uma república sindicalista quando ninguém a constituiu e misturando empregados e patrões como na última década e no maior espetáculo de ocupação do aparelho estatal da história brasileira e talvez causa de todos os problemas de corrupção como decorrentes de tais transbordamentos, primeiramente de forma tímida no mensalão e, na sequência, no cipoal sórdido do petrolão. Faltou a medida ética no processo de aparelhamento e que era o forte do PT antes de ser governo.

Outro divisor

Em 1965 houve eleições estaduais no Brasil e aqui tivemos a disputa entre Paulo Pimentel, candidato de Ney Braga, e Munhoz da Rocha, nenhum com restrições da área militar. À época, decidimos, um grupo de atingidos pelo Ato Institucional entre cassados e vítimas de limitações funcionais e até de processos militares, apoiar Bento e à véspera do pleito "O Estado do Paraná" publicou, em manchete, o suposto apoio dos "comunistas". Era o velho recurso psicossocial, ainda persistente, do divisor ideológico. Jornalistas eram atingidos por causa da "Última Hora", razão pela qual todos seus repórteres, editores e colunistas acabaram enquadrados e junto com alguns comunistas históricos, como o advogado Vieira Neto e o médico Jorge Karam, para dar o tempero da "coerência" desejada.
A disputa no sindicato era francamente nossa e vencemos facilmente chapas de oposição e em 1963 tivemos uma greve geral, a única até hoje no País em que jornalistas levaram a melhor. Uma assembleia unitária de gráficos e jornalistas no Sindicato dos Bancários, à época o mais agregador, decidiu pela greve e me coube a condição de encaminhador da proposta. Tivemos o bom senso de repelir uma sugestão de sindicalistas do litoral, que pretendiam fechar os portos de Paranaguá e Antonina em solidariedade, como era muito comum, e que servia de fermento às acusações.

As diferenças

Há semelhanças, sim, entre aqueles idos e os dias de agora: a democracia está mais consolidada, instituições como o Ministério Público e o Judiciário se saíram bem nos testes do mensalão e agora no petrolão; há um movimento de advogados atacando a Lava Jato e os critérios do juiz Sérgio Moro, mas à medida que as delações premiadas ganham consistência e ratificação nas provas que as subsidiam cresce a convicção de que a verdade virá à tona e que as subjetividades suscitadas (comparar a prisão prolongada como tortura no anseio de induzir a delação é de um ridículo atroz ou ainda a analogia presidencial entre um dedo duro dos anos de chumbo com o delator premiado, regulado por lei assinada por Dilma Rousseff) não prevalecerão.

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