Luiz Geraldo Mazza
Sem bússola
Cada vez mais fica nítido que o governador desconhece a sua obra, o governo. Já no primeiro mandato essa sensação era dominante quando, por exemplo, um grupo de policiais encapuzados, sindicalistas de oposição, invadiu a tal mansão, supostamente protegida, na qual se praticava jogos e lenocínio. Ficou ali visível num setor sensível como esse dentre os que mais investiu com alto reforço nos quadros militares e civis esse desligamento da autoridade. Aliás a sucessão de nomes e estilos diferentes convocados para a pasta é também sinal de insegurança e perplexidade e num certo momento tivemos um membro do MP estadual, Cid Vasques, em confronto aberto com o Gaeco que felizmente pela sensibilidade da instituição (Procuradoria da Justiça) deu a vitória a esse braço estratégico da corporação nas assembleias internas.
Como o governador ignorava a história da mansão, que na sequência derrubaria um dos ocupantes da Diretoria da Polícia Civil, também estava inteiramente por fora dos desmandos de delegados, denunciados em reportagem, que usavam carro oficial até para ir ao bordel. Como sequência disso tivemos dois jornalistas que praticamente se viram obrigados à proteção especial como "exilados" e na mesma direção o absurdo da convocação de repórteres para que entregassem seus possíveis informantes. Da mesma forma que prometeu ir fundo naquele atentado à liberdade de imprensa declara-se hoje o maior interessado em saber o que o Gaeco vem apurando na operação "Publicano".
A contenção natural
Uma autoridade, que se respeita, não precisa recorrer às bravatas, como fazia Requião para gerar intimidação interna: sua presença e seriedade são suficientes para isso e é ela que leva à contenção dos agentes que o cercam.
O governador não pode ser um abúlico, um desinteressado nas questões de Estado e de cada setor específico sob sua suposta orientação. Em pouco tempo se soube dos desvios de origem fiscal detectados pelo Gaeco. Ora a pasta, hoje entregue a um especialista em ajuste fiscal, não pode ser tão vulnerável à prática de desvios sistêmicos. Por sinal que isso é inaceitável em tempo de crise, recessão, vacas magras e não se pode admitir que justamente o setor de fiscalização, que afinal responderá pela recuperação, esteja minado pela fraude e a corrupção.
Pessoas ligadas ao governador pelas imagens - como a do companheiro de saga automobilística apontado como designado pelo parente distante, Luiz Abi Antoun, no comando da quadrilha de auditores - revelam que a intimidade não é razão imposta para inibição e isso o coloca mal perante a opinião pública diante do distanciamento olímpico dessas pessoas nas regras mínimas de deontologia. Não se ouve uma frase dura de condenação aos malfeitos, como se um travo de inibição o contivesse. Aliás, no episódio Ezequias - aquele que punha a mão no salário da sogra fantasma - tentou colocar a lealdade ao assistente como valor maior do que a contestação da fraude. E chegou a invadir área da teologia quando veio com a teoria de que se deve punir o pecado, não o pecador quando tenta ensinar o padre a rezar missa e faz da homilia alvo dos repentes da inspiração política.
Agora a Fundepar
Mais recentemente estoura outra denúncia: desvio de R$ 30 milhões em obras da Fundepar, desastradamente precedida da demissão do engenheiro que denunciou a trama. É o mais novo caso de desídia funcional com empresários recebendo suas faturas antes da conclusão das obras. Aliás é um vexame essa documentação fotográfica de prédios inconclusos, reveladora de que não há acompanhamento desses contratos e cuja interrupção não é investigada.
De tudo, porém, o que mais choca é o desconhecimento de que gente que lhe é próxima se envolver até o pescoço nas tramas da operação "Publicano". Suas falas sobre o tema mostram perplexidade, espanto, como se isso não lhe dissesse respeito, como se fosse algo situado fora do seu alcance, em galáxia o mais distante possível como a do parente remoto.





