Política Atualizado em 13/06/2015, 23:00
Luiz Geraldo Mazza
Já se discutiu até no campo da filosofia política se a greve de professor é mesmo um mimetismo obreiro como sugeriu o esquerdista Aarão Reis ao mostrar que numa parede operária de uma fábrica o capitalista é que sofre com a interrupção da produção e na dos mestres quem leva a pior é a família, os filhos e pais. A nossa APP-Sindicato tem uma tradição nessa área: sempre, aliás, levou a melhor, o que não se deu agora porque nem o reajuste automático, que é aplicado rotineiramente desde 2007, foi conquistado em função das notórias dificuldades fiscais.
Já nos governos Ney Braga e Paulo Pimentel tivemos os primeiros ensaios e que se traduziam em medidas mais singelas como "operações tartaruga" até ganharem corpo e consistência. O fato é que nunca o governo utilizou qualquer dos dispositivos do seu arsenal de resistência, dentre eles o de cortar dias parados que dessa feita foi deixado de lado para facilitar a reposição.
Percebeu-se, no entanto, que na hora em que isso ocorrer o fôlego da greve se esvai como se viu naquele momento em que manifestantes bloquearam a entrada da secretaria da Fazenda e o governo lembrou que se aquilo continuasse haveria a interrupção da confecção das folhas de pagamento. Bastou a alegação para que abrissem a guarda na simples hipótese de a grana não sair ou demorar.
Essa circunstância de não haver enfrentamento (o confronto policial foi uma inominável estupidez, um arreganho fascista, centrado na possível reprodução de atos violentos como os da invasão da Assembleia) deu uma força imponderável à categoria, que se sentia com o corpo fechado à hipótese de cortar salário. E seguidamente o governo mostrava um receio reverencial às passeatas e outras formas de manifestação como revelou no fim do ano passado ao recusar-se a pagar o adiantamento de férias excluindo o professorado da restrição, medo-pânico de reações imagináveis. Ora o corte dos dias parados necessariamente faz parte da etapa de encerramento da greve como se fez agora em troca da reposição do calendário escolar. Se, no entanto, transformado em norma, o que não é fácil, o poder de barganha cai.
É claro que apesar da baixa credibilidade do governador ele não deixa de ter parcela de razão quando afirma que as greves no Brasil se dão contra governos do PSDB num esforço de compensação pelas provas de corrupção contra o lulopetismo e se escudam, é claro, no fato de os movimentos contarem com a inspiração e comando da CUT, braço sindical do sistema. É válido que em meio ao mau momento do comissariado, flagrado com a mão no jarro, demonstre vitalidade e que não se entregou, revelando confiança e disposição à luta.
Só que isso é inútil: da bandeira antiga, da ética, o PT se afastou e na ânsia da ocupação absoluta não apenas do aparelho de Estado, mas ainda de fundos de pensão e agências reguladoras, postou-se com um pragmatismo avassalador que não admite "ingenuidades" e idealismos. Pode-se dizer como Castro Alves falou da bandeira nacional aplicá-lo à antiga e ingênua do PT: "Antes te houvessem roto na batalha... do que servirdes a um partido de mortalha".
Grevistas, no caso, passam pela condição de comissariado de reserva, firmes no engajamento como é a situação de muitos deles.
Um descuido dos grevistas foi não ter colocado o acervo técnico do Dieese, Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos, para auxiliá-lo na discussão técnica sobre a verdade fiscal. Deveriam ter percebido, lá atrás, que a suspensão das eleições dos diretores das escolas se dera por absoluta carência de recursos como já havia outras sinalizações como a do corte das verbas rescisórias dos mestres temporários e também do adiantamento de férias.
Tem se a impressão que o aparato estatal, sempre vigoroso, passa por crise nunca vista: toda a pujança que sempre o caracterizou está minada, como se estivesse se diluindo, o sal lançado na lesma que se dissolve.





