É hora de seriedade e de bom-senso e entender que a corda já esticou demais

Busca do consenso

Comprovada a quebra do Estado, com a abundância e precisão dos números revelados, e que pesam como um julgamento negativo da gestão Beto Richa (74% de alta em despesas com pessoal e encargos em cinco anos como acentuou Mauro Ricardo Costa em seu diagnóstico), espera-se que não haja mais espaços para encenações burlescas no Centro Cívico do basismo obreiro e de parlamentares perplexos a dançar um minueto de alto risco. É hora de seriedade e de bom-senso e entender que a corda já esticou demais.

O fato é que pelos prejuízos causados ao conjunto da sociedade nossos bravos professores merecem algum tipo de sanção, uma vez que a justiça declarou a greve abusiva e estabeleceu multas pela transgressão: o desconto dos dias parados, saída mais pedagógica, é incompatível com o sentido da reposição das aulas e reconstrução do calendário. Todavia a multa é indispensável para que um mínimo de lei e ordem seja observado. Poderia ser também a prestações, como se está fazendo com o reajuste salarial, mas precisaria necessariamente ser cobrada para que se tome consciência do lado oneroso da greve mesmo quando ela pretende ser o que não é - uma expressão da luta de classes. Numa parede contra um industrial esse é o prejudicado, mas no caso dessa de professores não é o simulacro de patrão, o governo, e sim o conjunto da sociedade, alunos e seus familiares, que pagam tributos para ter escolas funcionando.

Condescendência

A forma passiva como o governo tem reagido às manifestações atribuiu a APP uma força inegável, em termos de coordenação e aguerrimento, mas que nunca foi testada como o do não pagamento dos dias parados, risco a que o trabalhador da área privada está mais sujeito. O exemplo claro desse tratamento seletivo (não apenas em remuneração, já que ninguém como a categoria teve 62% de reajuste nesses cinco anos) foi dado quando da decisão de não pagar o adiantamento de férias da qual dispensou os professores com receio de tumulto. E essa foi apenas uma das concessões, sem considerar outras como as medidas do Conselho de Gestão que proibia promoções, acessos e atrasados a todos e que foi respondida com mais uma procissão dos mestres no Centro Cívico e que levou Beto Richa, mais do que ele o secretário de Educação, ao recuo.

Toda essa acumulação de energia deu margem ao abuso da invasão legislativa, que só pode ser aceito na perspectiva de "resistência civil", portanto um ato revolucionário, um motim, e assim ser tratado. E foi a lembrança desse abuso que levou a área de Segurança ao excesso de cautelas de 29 de abril, uma estupidez inominável e aí em cima de uma causa mais justa, a defesa do fundo de pensão espoliado pelo governo no qual os professores falaram mais alto por toda a gama de servidores.

'Vaquinha'

Como o governador Beto Richa insiste na tese de que a greve é política e visa neutralizar as denúncias de corrupção do lulopetismo tanto que se dá - e de forma coincidente - em governos do PSDB será fácil a ele valer-se de um silogismo para mostrar a semelhança entre a "vaquinha" dos professores para pagar as multas com aquele livro-ouro que beneficiou os atores do mensalão no pagamento desse tipo de obrigação, mutirão válido para mostrar vitalidade política e coesão.

Não importa que haja identidade de métodos porque os sacrifícios decorrentes da greve são partilhados em grupo: seja na reposição das aulas e restauração do calendário escolar agredido, seja no pagamento das multas, já que apenados são o sindicato e a associação representativos. Também há em defesa do petismo um dado a relevar: mostrar vitalidade num momento de adversidade é válido tanto em greves como na partilha das multas e isso só se testa numa hora de padecimento, ainda mais quando a principal das bandeiras históricas do partido, a da ética, é amplamente desmascarada. Nesse caso eles viram minoria e não essa aparência de hegemonia das articulações sindicais.

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