Ruim de massa crítica

Quando o Paraná teve seus grandes momentos, como os vividos depois de Ney Braga e tiveram uma surpreendente linearidade, uma das condicionantes de toda aquela energia era a existência de massa crítica na área de Planejamento, hoje praticamente zerada, e em setores de estudos das diretas (Educação, transporte rodoferroviário, portos e aeroportos, telecomunicação, saúde, tecnologia) e, sobretudo, na Copel e em menor escala na Sanepar, com projeções de curto, médio e longo prazos.
O Estado estava equipado e para tanto tinha uma retaguarda e apta a dar no momento certo as respostas necessárias de suas aspirações quase todas bem dimensionadas e expressas no Plano Trienal de 1963 que seria atropelado em seus fundamentos pelo golpe militar já que o método de alfabetização de massa, o de Paulo Freire, por exemplo, estava na proposta da Sagmacs (Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais) que se orientava na filosofia do padre Lebret, fração à esquerda que precederia a Teologia da Libertação e se centrava num movimento de economia e humanismo.
Perdemos as nossas rotinas de estudo e reflexão e, sobretudo, de analogias entre os indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar do IBGE e os de caráter internacional. Lembro que havia um mestre da Sorbone, professor Lucas, no Planejamento, voltado para esses estudos sistemáticos na área de educação e postos em confronto com outras unidades federativas.

Leigo em planejamento

Não é obra do neoliberalismo, essa transformação de um Estado que antes apostava no planejamento e que de repente se fez leigo na matéria, heresia imperdoável mesmo para os não estadistas. Esse vácuo - a ausência de projetos específicos em múltiplas áreas - decorre de uma acomodação, de uma espécie de tédio com o trabalho prospectivo que, pelas resistências nacionais, às vezes leva ao desânimo. Há anos que não temos uma campanha eleitoral que discuta a visão do futuro paranaense. Isso aconteceu, por exemplo, nas diretrizes de José Richa e num plano de Alvaro Dias que o sucedeu. Não tinham a firmeza técnica das ações dos governos que se seguiram ao de Ney Braga, mas se notava uma predisposição dos convocados para o trabalho com visão crítica da atualidade e alguma projeção do futuro. Não havia, no entanto, aquela aura, aquela energia, a compulsão de mudar a realidade, que teríamos um dos últimos momentos na acuidade de Pedro Viriato Parigot de Souza ao fazer da sobriedade e da poupança o esforço que permitiu Canet Júnior tocar mais de 4 mil quilômetros de rodovias de asfalto de baixo custo que se transformaram em modelo adotado em países subdesenvolvidos pelo Banco Mundial.
Tivemos elites admiráveis como as da hidroenergia com gênios como Nelson de Sousa Pinto, autoridade mundial em hidráulica, e José Gomide, em hidrologia, tudo sequência natural do trabalho de Parigot de Souza na Copel, líder e agregador, e visível no colar de barragens aqui construídas e no know how que detemos no segmento, posto que não tenhamos desenvolvido outras matrizes energéticas mesmo no impacto dos dois choques do petróleo do século passado, o que não deixa de ser uma gravíssima deficiência.

Haja empirismo

Uma das últimas cabeças do planejamento foi a de Cassio Taniguchi com ações relevantes na prefeitura da capital e no governo estadual. Um alegre empirismo parece ditar as regras, se é que existem, em meio ao predomínio a esse sucedâneo da inteligência e do talento, que é o marketing. Como se não bastasse temos aí a crise fiscal que bloqueia ao Ipardes uma das poucas tarefas que praticava, a pesquisa de emprego, o que se repete em outras áreas.
O homem de planejamento é no regime atual algo parecido com um ET e do qual precisamos nos distanciar o máximo possível, porque se trata seguramente daquilo que nos anos 50 e 60 chamávamos de ''alienado'', alliens no rigor filológico e semântico da palavra.

mockup