LUIZ GERALDO MAZZA
Unidade esgarçada
Nem parece que em tempos recentes o Executivo conseguiu a um só tempo com o Judiciário o acesso aos depósitos judiciais e o estabelecimento do caixa único para enfrentar a crise fiscal daquele exercício. O presidente do Tribunal de Justiça concedeu aos seus servidores os 8,17% da inflação acumulada o que também se aplicará obviamente a juízes e desembargadores. Aquela preocupação com a solidariedade na crise fiscal desapareceu e assim mesmo os judiciários entraram em greve para colocar em pauta outras demandas.
No olhar do desembargador a Lei 15.512 foi aplacada em toda sua extensão e é claro que isso pode gerar questionamentos para ver por que o Executivo se obstina, por alegada crise fiscal, em não segui-la. Se o direito é líquido e certo, o mandado de segurança aparenta ser o remédio. Aparenta porque o casuísmo é infenso à chamada regra de isonomia e com ele o funcionalismo, incluindo aí a massa de professores, iria para as galés nessa sociedade legalíssima e constitucionalíssima de castas.
Mas o mundo jurídico não é assim. O filósofo Ernani Reichmann, o intérprete maior de Kierkgarden no Brasil, que era economista e com formação jurídica, dizia que os juristas descoloriam a realidade para torná-la jurídica. E com essa decisão do TJ e mais a mensagem de ontem do governo fixando os 3,45% em três parcelas e transferindo a data-base para janeiro de 2016 com aplicação então dos 8,37% impulsiona-se a greve ante o o ato governamental que vai além de uma aparência de terrorismo, é terrorismo visceral.
Se o Judiciário deixou de somar as suas preocupações com a crise fiscal junto ao Executivo, os servidores daquele poder, ao contrário, fizeram a greve com um sentido de solidariedade a seus colegas de outras categorias e também para enfocar novas demandas como a de falta de condições de trabalho, escassez de servidores e péssimas acomodações.
É claro que se torna mais fácil a solidariedade tanto na Assembleia como no seu órgão auxiliar Tribunal de Contas, somando preocupações com o Executivo, mas a simetria intrapoderes está rompida, os vasos comunicantes já não aparentam equilíbrio.
Greve
O governo resolveu, portanto, jogar duro e dessa vez testar para valer os grupos rebelados. A greve já exibia sinais de esvaziamento, de fadiga do material, e não se sabe se isso dará mais força ou levará ao desânimo os radicais. É um teste, pois o governo que poderia perfeitamente cortar os salários dos mestres pelos dias parados agora se dispõe a ir muito além: atingir todo o corpo funcional com percentuais tão absurdos.
Suspense
Não dá para confrontar Beto Richa da euforia com o de agora, da depressão: é visivelmente um mau ator, diz infantilidades como aquela sobre a esposa que nem saberia o que era um auditor da Receita como se fosse uma jejuna e não alguém que desde o tempo da prefeitura fazia campanhas de agasalhos. E ontem bateu todos os recordes: criou uma expectativa enorme para a reunião com secretários e apareceu com frases vagas como aquela anunciando que ''o melhor está por vir''. E não se referia à primavera, talvez o mais imediato de todos os presentes possíveis.
Um feito
Algo incomum ontem: a prisão de 13 integrantes de uma quadrilha que operava na explosão de caixas eletrônicos.
Machismo
Cartazes machistas e homofóbicos, de um primarismo doentio, foram afixados no setor de arquitetura do Centro Politécnico e causaram revolta. Às vezes, o jurássico está ao nosso lado.
Folclore
A paranoia com as três folhas de novembro/dezembro/13º foi um dos fatores que levou à engenhosa proposta dos 3,45%. Dá para imaginar o impacto que haveria com três folhas de R$ 1,2 bilhão no conjunto das despesas.





