LUIZ GERALDO MAZZA
Ações tardias
A partir de ontem, quando a folha de pagamento
de maio já está fechada, o governo iniciou o processo de cortes de salários dos professores. Medida várias vezes anunciada, seguida de recuos, poderia ter testado, lá na frente no andamento da convulsão, a firmeza dos grevistas que até aqui se valeram justamente da inexistência de sanções. Em São Paulo
o governo cortou salários e o STJ considerou a medida legal, levando em conta o prejuízo que o poder público está sofrendo com a contratação de mestres substitutos.
Com orçamentos esticados, dá para imaginar o trauma que seria o desconto dos dias parados e que, certamente, atingiria a autoconfiança (e mais do que isso uma certa soberba) dos grevistas e levaria as bases a pressionarem o comando pelo desagradável e contundente imprevisto. É justamente o desequilíbrio entre a ousadia dos sindicalistas e a frouxidão da autoridade que confere uma força falsa a
APP-Sindicato e amplia suas perspectivas de arregimentação. Nunca houve esse necessário teste para a limpidez dessa caricatura de luta de classes que seguidamente assistimos. Do arsenal punitivo do governo, há desde o corte dos dias parados como o cumprimento das decisões judiciais bem como das multas aos sindicatos até, uma já ocorrida numa crise passada, de a Fazenda não processar mais os descontos das mensalidades para a APP-Sindicato, obrigando-a a equipar-se para atender tal necessidade. Uma ação selvagem como certos momentos da greve.
Outra questão tardia é não dar o número exato de escolas abertas e de furos na mobilização.
O derradeiro informe, um tanto quanto duvidoso,
frisa que mais de 40% das escolas estariam funcionando: se isso estivesse, de fato, ocorrendo o governo partiria para a ofensiva na questão da mensagem de reajuste (visivelmente em revisão porque a base aliada racha se persistir um número inferior à taxa acumulada de inflação) e não estimularia encontro entre seus deputados e sindicalistas como aconteceu ainda ontem.
Enfim, o governo valeu-se do pior: uma repressão fascista, com mais de 200 feridos e um exército de mártires para novas retaliações. E deu armas
para o PT mostrar que esse não é o seu estilo ante pressões populares. Quanto à corrupção o PSDB daqui ameaça, pela picaretagem fazendária e com dutos na campanha eleitoral, chegar a um empate, apesar da goleada do petrolão.
Médico fantasma
E não é que a Polícia Federal descobriu médicos fantasmas no Hospital de Clínicas que assinam
o ponto e se mandam? Convenhamos que há um mimetismo forte entre o jaleco dos doutores
e o lençol dos fantasmas. Bom aquele tempo em que mestres e alunos respeitavam até o bedel e olhavam, contritos, o crucifixo nas paredes.
Cordialidade
Mais uma vez a cordialidade intrapoderes
se firmou: o Tribunal de Justiça, que já havia em decisão unânime de câmara criminal anulado o processo do anexo do Tribunal de Contas, sob o alegado vício na gravação telefônica, mesmo com o flagrante da mão no pote, o gestor levando duzentos paus do ganhador da licitação, o ratificou, ainda que o processo do MP retorne à vara criminal. De outro lado, o Tribunal de Contas entenderá como não pertinente a decisão do Ministério Público junto aquela Corte que considerou ilegal e inconstitucional a alteração na lei da Paranaprevidência, ratificando o parecer do seu presidente, Ivan Bonilha.
De repente, como já tentaram várias vezes, tiram o eco do Gaeco. O último que tentou fazê-lo foi o procurador de Justiça, então secretário de Segurança, Cid Vasques, que perdeu o jogo de braço com sua corporação, o MP. Ficamos como no caso do ex-presidente do TJ, Clayton Camargo, dependendo do CNJ.
Folclore
O uso da linguagem médica é um risco: nos anos 80
o noticiário da pasta da Saúde citava frequentemente IRA, a sigla em caixa alta da Insuficiência Respiratória Aguda. Como não a decodificava, volta e meia havia confusão com outro Ira, não a banda de rock, mas o Exército Republicano Irlandês.





