Tudo é veraz?

Vive o Brasil uma atmosfera kafkiana em que a frequência dos maiores absurdos torna o conceito do verossímil o mais elástico e relativo. O que se deu lá no mensalão, depois no petrolão e agora na barafunda da roubalheira fiscal no governo paranaense torna o ambiente permeável a qualquer especulação e capaz de ganhar o status de verdadeira na base da presunção.
A tentativa de envolver a primeira-dama Fernanda Richa é um desses casos em que o peso da compulsão informativa, mesmo quando ela parte de denúncia anônima, encontra facilidade na difusão, tal o absurdo que é a existência de uma gangue de hierarcas da fiscalização estadual drenando recursos desviados da fraude para a campanha eleitoral e integrada por pessoas da intimidade da autoridade maior, isso sem considerar ainda que se atribui a designação da chefia do sistema (e comandante, segundo o Gaeco, das operações) ao parente remoto, cada vez mais distante, Luiz Abi. Claro que não há nexo causal entre a especulação, divulgada de uma forma certamente irresponsável, e o que até agora foi apurado, mas o clima é como o das bruxas de Macbeth a mexer no seu hediondo caldeirão, coquetel de sapos, ratos e morcegos.
Adaptar-se a essa contingência é um risco para um dos melhores momentos da imprensa nacional, visível nas denúncias consistentes da Lava Jato e das ações articuladas pelo nosso Gaeco. Esse tem uma história de sofrimento porque já foi alvo de vários governos, irritados com sua atuação e que tentaram lhe reduzir as funções, negando-lhe apoio logístico e quadros civis e militares como também, lá nos primórdios da então Promotoria de Investigação Criminal, a PIC, que o precedeu, sofreu um ataque a bombas por parte da bandidagem.

O possível e o duvidoso

Quando medram as corrupções como rotina, e todas surpreendentes, a tarefa de filtrar o possível do duvidoso corre-se, é claro, por força dessa atmosfera psicossocial, o risco das deformações, da mesma forma que não há como distinguir numa ação policial em que bandidos são mortos se houve ou não a cautela devida daquele que tem o monopólio das armas e a prerrogativa da repressão. Tanto na suspeita genérica de que a fraude comanda o espetáculo ou de que a morte de bandidos não fere normas de respeito a direitos humanos, percebe-se a falência do sistema de governo que carece de créditos para firmar o princípio da autoridade, afinal o oposto dialético do princípio da liberdade que também se torna difícil de fixar parâmetros ante a desobediência sistemática tal qual se capta nas greves de funcionários públicos quando, por exemplo, bloqueia as entradas da pasta da Fazenda e impede o acesso dos seus servidores, transbordamento condenável, como se deu ontem com naturalidade como se fosse o exercício de um direito e não uma violência reprovável, isso bem distante do apelo bem humorado em cartazes para que os carros, que passavam no local, buzinassem pelo IPVA e por altas de impostos e taxas.

Abusos sistêmicos

Nunca no Paraná houve como agora casos de exílio forçado de jornalistas por temor de retaliação da polícia ou de gangues (caso da degradante sexualidade com menores em Londrina), como jamais se viu a autoridade policial achar-se no direito de prensar repórteres para que revelem as suas fontes. E isso justamente para apurar quem da corporação divulga os informes negativos, prova de inexistência de comando e mau funcionamento das instituições de controle como a Corregedoria. Só isso obrigaria a autoridade a ser mais contida e depurar o meio ambiente imediato quando se sabe que é impossível aceitar aquele motim de policiais encapuzados, sindicalistas de oposição, que invadiu a mansão de prostituição e jogos, tida como protegida, no primeiro mandato de Beto Richa.
Quem cultivou o descrédito foi o próprio governo, autodestrutivo e isso por método. Somente ele e mais ninguém, muito menos gerentes de crises, poderá reverter esse quadro.

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