LUIZ GERALDO MAZZA
Ultimato, último ato?
O governo resolveu endurecer com o funcionalismo ao encaminhar ontem a mensagem que fixa em 5% o reajuste do pessoal e em duas parcelas. Inevitável foi a piada de que se Mauro Ricardo Costa, secretário da Fazenda, veio de Salvador para isso seria melhor trazer o especialista em crédito parcelado das Casas Bahia.
Na verdade, essa é apenas mais uma das medidas de ajuste fiscal e, como as anteriores, alcança um setor que está em conflito aberto com o governo e que o colocou mal na opinião pública pelo massacre de manifestantes com extremo poderio bélico. Encerra as negociações com sindicatos, anuncia (o que jamais fez) o corte do pagamento dos dias parados e outras medidas repressivas como processos de insubordinação contra diretores de escolas que estimularam a greve. Enfim: beligerância aberta apesar de o governador Beto Richa estar no pior momento de sua carreira política e se batendo para retomar uma pauta afirmativa e que o retire da fossa.
A forma como tudo foi colocado afasta a possibilidade de um blefe, por exemplo, na negociação do parcelamento, o que mexeria com os planos de austeridade do tzar financeiro. E o Executivo ainda conta com as decisões judiciais que declararam a greve abusiva e fixaram multas diárias à APP-Sindicato, o que faz parte de munições que poderiam ser empregadas.
O funcionalismo em geral não tem o grau de arregimentação dos professores, com exceção do setor de saúde, todavia o clima gerado pode levar a um levante de categorias com escasso sentido de engajamento sindical. O governo ao abandonar o diálogo se expõe ao risco de o radicalismo voltar ao auge de abril. É um teste mais para os professores e barnabés do que para a administração estadual que se vale de dispositivos draconianos de leis e decisões judiciais para emparedar os reivindicantes. Dá para imaginar novos cercos ao Legislativo e novas defecções na base aliada com receio da impopularidade.
Se o ultimato é último ato, afasta-se a hipótese de negociações e acirramento da postura dos grevistas que sempre foram atendidos em suas pretensões, o que pode agora sinalizar uma nova cultura, bem mais dura do que a habitual e sem contemplação.
Sujeito oculto
Tenta-se, na fase repressiva, tirar Beto Richa do cenário. Tanto que ontem tudo ficou por conta do chefe da Casa Civil, Eduardo Sciarra, ora com poderes como aqueles conferidos a Zé Dirceu. Mas o sujeito oculto da oração, Beto Richa, segue em acelerado desgaste. Já o sujeito inculto é atributo de muitos e isso referido, inclusive, no âmbito interno.
Igualdade
Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Paraná avançou muito nacionalmente em indicadores de queda da desigualdade. Só perde para Santa Catarina, o primeiro do ranking. Normalmente, em matéria social e de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o Paraná é o último em expectativa de vida e escolaridade no Brasil meridional.
Pedágio
Há uma corrente no governo estadual contra a prorrogação dos contratos de pedágio, já colocada em pauta e desejada por interessados, desde que não implique em queda severa das tarifas tidas como escorchantes.
Automática
Desde maio de 2007 a lei 15.512 (Diário Oficial 7483) que trata da data-base do funcionalismo tem fixado de forma automática o reajuste sempre cobrindo a inflação acumulada. Essa de agora subverte esse entendimento em função do ajuste fiscal e justificada também na Lei de Responsabilidade Fiscal.
Folclore
Mauro Ricardo, da Fazenda, declarou que o reajuste é esse de 5% e em parcelas e não tem conversa. Parcela rima com procela, tempestade, que pode vir de uma só vez e não em conta-gotas, e é o que poderemos ter novamente em função de um radicalismo que em momento algum marcou o estilo de Beto Richa, mas agora o engolfa de forma permanente, o Doutor Silvana com cara de mocinho.





