Sequelas possíveis

Reflexões e especulações que se seguiram ao bogotazo de Beto Richa buscaram ver as consequências mediatas e imediatas de caráter político do tema: é ainda prematura uma avaliação pelo fato de que não são visíveis a totalidade do trauma e sua migração pelas bases capilares das redes sociais. Até uma imagem da Guernica (e o registro trocadilhesco de Guernica) de Picasso numa colagem com o Centro Cívico foi imaginada. Exagero, é claro, mas com forte mensagem condenatória, aceitável como pedagógica.
O fato de o garrote vil da Polícia Militar ter alcançado tanta gente, muito mais do que os 200 e poucos feridos, é indicador de que há ainda muita dor e sofrimento represados para uma retaliação. A ida de secundaristas ao Centro Cívico na quinta-feira para um protesto é a parte visível do "iceberg" que pode contemplar novas e frequentes articulações nessa direção por parte de sindicatos e movimentos sociais.
A quadra é nada favorável ao governo para a reversão tanto no front dessa relação com funcionários públicos, espoliados em seu fundo de pensão, como na própria estratégia do ajuste fiscal, mesmo com as comemorações precipitadas no sucesso legislativo. Para fechar a folha de pagamento de abril foi uma luta na coleta de recursos como sempre e que se tornará com a sanção da lei que mexe na Paranaprevidência mais tranquila se não houver o acidente de percurso bem possível do veto ministerial.
O Fórum dos Servidores Estaduais quer criar um sistema de vigilância dos gastos governamentais em função da "pedalada" para ver se não crescem os abusos das nomeações e dispêndios mordômicos. Pode ser que essa atalaia se torne num dos avanços específicos da participação cidadã com olho firme em gastos supérfluos, a publicidade, indispensável à virada imaginada.

Recomposição
A agenda positiva do governo no front político - posicionamento contra o impeachment da presidente, o encontro com o vice Michel Temer - atropelada pela beligerância da semana que se acoplará à imagem do governador num momento de afirmação de sua liderança. Cada explicação que der, como a que tentou justificar a ação dos cães no caso do cinegrafista e do deputado oposicionista Rasca, só renderá material para anedotário e agressões como aquela do Boechat que comparou o cérebro dos cachorros ao da polícia e do governador.
Ilhado, o governo festeja a aprovação da lei previdenciária até como um ato missionário e corajoso e não uma simulação contábil que realiza velho anseio de ocupantes do posto: por a mão, se é que o capital existe, nos R$ 8 bi da Paranaprevidência, já repetindo um velho clichê triunfalista da praça, de que se trata do melhor fundo de pensão do País.
Parlamentarmente quem ganhou substância foi a oposição que viu sua votação triplicar, o que não significa que virá a repetir-se com maior frequência.
Gustavo Fruet, o prefeito, virou a Cruz Vermelha do Centro Cívico e marcou pontos com a assistência prestada a feridos. Resta saber se a maioria do funcionalismo, até aqui sempre enganada em torno da previdência, captou o lado negativo da ação governamental facilitada pela ausência de vigilância. Outro que faturou um pouco foi o filho de Roberto Requião já admitido como candidato a prefeito da Capital que lhe dará, no mínimo, energia para reeleger-se como deputado estadual.
Do lado situacionista, chamuscado, Ratinho Júnior é quem reúne mais condições de lá na frente representar o grupo na disputa estadual em que Alvaro Dias no momento parece o mais forte no tucanato, agora com cobertura nacional, o que nunca teve, apesar do papel isolado de combatente que desempenhou.

Obras, a saída
Saída de Beto Richa é partir para algo que não marca a sua gestão: obras, o que poderia ganhar um certo incremento com a folga fiscal aparente. Dívida do governo continua grande com obras paralisadas e a caixa preta do pedágio sempre protegida não indicam perspectiva de progresso no setor. Todavia essa é a aposta: fazer o que ficou devendo do primeiro mandato.

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