Despreparo geral

Episódios de violência como os de anteontem não se reproduziram na contenção de novas manifestações ontem no Centro Cívico, embora tivesse alcançado um momento de tensão. Resumo: despreparo do governo e de sua polícia que, afinal, deveria ter um melhor adestramento para conflitos de massa, tantas as vezes em que foi chamada a intervir.
A parte não comprometida da sociedade, e com ela o Ministério Público mais a OAB e a Arquidiocese, destacaram a óbvia e covarde desproporção de força entre os litigantes, o que torna a repressão com viés fascista numa espécie de culto da violência pela violência, alinhamento que um grupo de policiais da academia vinha acentuando que tal ocorreria com o modus operandi de Franceschini. Com a hipótese, bastante provável, de a mudança na Paranaprevidência não ser aceita pelo Ministério da Previdência Social e negado o registro de regularidade torna o drama vivido, com desgaste dos dois lados, um desperdício de energia.
O Judiciário tem agora a cumprir as medidas que adotou ao declarar a greve abusiva: multar a APP Sindicato nos termos da advertência feita, exigir a volta às aulas e isso imediatamente, ou então, na hipótese de sustentação da parede, encará-la como ''resistência civil'' e aplicar a lei. Não pegaria bem o Judiciário enquadrar-se como o Executivo e o Legislativo como despreparado.
Consequências políticas imediatas: a reação até internacional - isso sem falar nos órgãos de proteção interna dos direitos humanos, o governador fazendo algo que o seu colega de São Paulo, embora a persistência da greve professoral, se recusa e revelando um facies que nem seu adversário máximo, o PT, faz diante das agitações populares gigantescas no País. Endireitou politicamente, mas não na perspectiva fiscal com o avanço no capital do fundo de pensão já que não tem a mínima vocação para a austeridade. Teme-se, inclusive, que com essa folga momentânea nas contas volte à velha compulsão do primeiro mandato na curtição de um clima de lua de mel com o poder e gastos incontroláveis em progressão geométrica de uma receita que cresce aritmeticamente.

Um mártir

É mais fácil surgir um mártir, isso é uma vítima fatal do lado dos reprimidos do que da polícia numa operação como a de anteontem. E isso pode se dar com um ataque de cães que eventualmente atinja a artéria femural, como quase se deu com o cinegrafista Jesus, da TV Bandeirantes, e não haja condições de conter a hemorragia. Há outras lesões possíveis como a da perda da vista com uma bala de borracha, isso sem falar em consequência de enfarto ou AVC em manifestante.
A ordem era visível: esmagar, pela saturação de forças militares, qualquer sinal de resistência. Nem no regime militar vimos isso mesmo na balbúrdia de 1968 no Centro Politécnico. A foto premiada no Esso, de Edson Jansen, com o acadêmico de Medicina de estilingue à mão ante o cavalariano que avança é poesia perto do que se viu na capital agora.

Bloqueio

Na leitura do seu relatório favorável a Luiz Edson Fachin para ministro do STF, Alvaro Dias percebeu a reação que está montada no PMDB para vetar o jurista com a indicação de suposta incompatibilidade entre sua condição de procurador, nomeado pelo paranaense após concurso, e o exercício da advocacia privada. Maiores hostilidades virão da bancada ruralista pela identificação com teses do MST.

Sequência

A APP Sindicato marcou manifestação para hoje na Praça 19 de Dezembro e pautou sua assembleia para terça-feira próxima. Até lá, a greve persiste, apesar da ordem judicial de retorno às aulas e das multas.

Folclore

Quase se repete com o pessoal do Palácio Iguaçu o havido com Marco Aurélio Garcia com o top top no acidente aéreo: circula um vídeo nas redes sociais em que uma câmera grava da sede do governo as cenas do conflito no Centro Cívico e uma voz é de aplauso à violência. Outra: em entrevista nacional Beto Richa disse que o cinegrafista pisou no rabo do cão que o agrediu e Rasca empurrou um PM para levar a mordida. Um craque pavloviano em teoria dos reflexos condicionados, mais para os cães é claro.

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