LUIZ GERALDO MAZZA
Despreparo geral
Episódios de violência como os de anteontem não se reproduziram na contenção de novas manifestações ontem no Centro Cívico, embora tivesse alcançado um momento de tensão. Resumo: despreparo do governo e de sua polícia que, afinal, deveria ter um melhor adestramento para conflitos de massa, tantas as vezes em que foi chamada a intervir.
A parte não comprometida da sociedade, e com ela o Ministério Público mais a OAB e a Arquidiocese, destacaram a óbvia e covarde desproporção de força entre os litigantes, o que torna a repressão com viés fascista numa espécie de culto da violência pela violência, alinhamento que um grupo de policiais da academia vinha acentuando que tal ocorreria com o modus operandi de Franceschini. Com a hipótese, bastante provável, de a mudança na Paranaprevidência não ser aceita pelo Ministério da Previdência Social e negado o registro de regularidade torna o drama vivido, com desgaste dos dois lados, um desperdício de energia.
O Judiciário tem agora a cumprir as medidas que adotou ao declarar a greve abusiva: multar a APP Sindicato nos termos da advertência feita, exigir a volta às aulas e isso imediatamente, ou então, na hipótese de sustentação da parede, encará-la como ''resistência civil'' e aplicar a lei. Não pegaria bem o Judiciário enquadrar-se como o Executivo e o Legislativo como despreparado.
Consequências políticas imediatas: a reação até internacional - isso sem falar nos órgãos de proteção interna dos direitos humanos, o governador fazendo algo que o seu colega de São Paulo, embora a persistência da greve professoral, se recusa e revelando um facies que nem seu adversário máximo, o PT, faz diante das agitações populares gigantescas no País. Endireitou politicamente, mas não na perspectiva fiscal com o avanço no capital do fundo de pensão já que não tem a mínima vocação para a austeridade. Teme-se, inclusive, que com essa folga momentânea nas contas volte à velha compulsão do primeiro mandato na curtição de um clima de lua de mel com o poder e gastos incontroláveis em progressão geométrica de uma receita que cresce aritmeticamente.
Um mártir
É mais fácil surgir um mártir, isso é uma vítima fatal do lado dos reprimidos do que da polícia numa operação como a de anteontem. E isso pode se dar com um ataque de cães que eventualmente atinja a artéria femural, como quase se deu com o cinegrafista Jesus, da TV Bandeirantes, e não haja condições de conter a hemorragia. Há outras lesões possíveis como a da perda da vista com uma bala de borracha, isso sem falar em consequência de enfarto ou AVC em manifestante.
A ordem era visível: esmagar, pela saturação de forças militares, qualquer sinal de resistência. Nem no regime militar vimos isso mesmo na balbúrdia de 1968 no Centro Politécnico. A foto premiada no Esso, de Edson Jansen, com o acadêmico de Medicina de estilingue à mão ante o cavalariano que avança é poesia perto do que se viu na capital agora.
Bloqueio
Na leitura do seu relatório favorável a Luiz Edson Fachin para ministro do STF, Alvaro Dias percebeu a reação que está montada no PMDB para vetar o jurista com a indicação de suposta incompatibilidade entre sua condição de procurador, nomeado pelo paranaense após concurso, e o exercício da advocacia privada. Maiores hostilidades virão da bancada ruralista pela identificação com teses do MST.
Sequência
A APP Sindicato marcou manifestação para hoje na Praça 19 de Dezembro e pautou sua assembleia para terça-feira próxima. Até lá, a greve persiste, apesar da ordem judicial de retorno às aulas e das multas.
Folclore
Quase se repete com o pessoal do Palácio Iguaçu o havido com Marco Aurélio Garcia com o top top no acidente aéreo: circula um vídeo nas redes sociais em que uma câmera grava da sede do governo as cenas do conflito no Centro Cívico e uma voz é de aplauso à violência. Outra: em entrevista nacional Beto Richa disse que o cinegrafista pisou no rabo do cão que o agrediu e Rasca empurrou um PM para levar a mordida. Um craque pavloviano em teoria dos reflexos condicionados, mais para os cães é claro.





