Um estado policial
Não apenas pelas lamentáveis ocorrências de ontem no Centro Cívico no choque entre milicianos e sindicalistas, e elas são precedidas dos dois jornalistas que precisaram exilar-se para escapar das coações, isso sem falar daqueles tiras e xerifes que queriam arrancar na marra a revelação das fontes das reportagens, o cenário era típico das ordens policiais da "Cortina de Ferro".
A velharia da comparação é pedagógica tanto lá como aí nas razões de Estado. Como no passado, os dirigentes de agora se valem da força para impor a sua vontade apoiada na maioria parlamentar cada vez mais aluída: o faccio, o feixe de varas do fascismo, se impunha como valor maior ao ponto de tirarem o caráter público das sessões parlamentares.
Evidente que tal aparato é uma caricatura já que essa mobilização tão forte da autoridade não é feita para prevenir e reprimir o crime, que aqui segue em ascensão estatística e incubado, inclusive, nas entranhas do governo com o rombo dos achaques a contribuintes em Londrina em conexão com a hierarquia fiscal da capital, segundo o Gaeco, desde 1995. A forma como se organizou a polícia só poderia dar em conflito ficando dominante a impressão de que a dissuasão menos bélica era incompatível com a predisposição para a violência com bombas de efeito moral, balas de borracha, spray de gás de pimenta, canhões d’água, cães adestrados. Os gazes atingiram uma instituição municipal de educação infantil ao lado do Palácio Araucária e afetaram as crianças que lá se encontravam. A parte subterrânea da prefeitura se transformou em improvisado pronto-socorro para atender cem feridos. Um clima de guerra.

‘Pedalada’, nada mais
Tudo, enfim, para justificar a ‘’pedalada’’ previdenciária que drenará recursos até então indisponíveis (não são do governo, mas patrimônio de servidores) para a cobertura, via fundo previdenciário, do pagamento de aposentados e inativos com mais de 77 anos, dando uma ‘’folga’’ nas contas correspondentes ao pagamento de 33 mil servidores. Uma alquimia contábil que pode ser vetada pelo Ministério da Previdência Social, quando o processo for analisado, como alertou ao governo estadual, ainda anteontem, o ministro Carlos Eduardo Gabas e cuja sanção impediria o Paraná de receber transferências voluntárias da União e obter empréstimos nacionais e internacionais.
Compreende-se aí a pressa em aprovar a mudança e para tal o aparato bélico montado, já que o Paraná não compareceu a duas audiências sobre o tema e com o intento de contornar o possível veto ministerial com mais moratória.
A primeira manobra, bem mais primária do que essa, a de fundir os fundos, adotada anteriormente por São Paulo e Rio Grande do Sul, levou à derrubada do certificado de regularidade previdenciária. O açodamento se justifica no sufoco da situação fiscal que se resolve com racionalidade, nunca na base da força bélica ou ainda com malandragem de parque.

A anestesia
É verdade que os manifestantes acirraram também os ânimos policiais, e isso não apenas pela lembrança dos idos de fevereiro e março com a invasão da Assembleia e aquelas cenas de extrema violência, como também em vista da disposição demonstrada e o acúmulo de participantes e aquele apelo para o bloqueio das ruas distantes a fim de descomprimir a concentração militar.
Igualmente o vexame da ocasião anterior com deputados obrigados a andar num carro blindado, juntamente com o secretário de Segurança, agarrado por um sindicalista, para chegar no plenário, é que levou a um novo ordenamento logístico, mais compacto e que acabou não dissuadindo a massa como se pretendia. Quase um repeteco de 1988 quando a PM se viu obrigada ao uso das bombas de efeito moral porque os dirigentes mais temerários tentavam nada mais nada menos do que a invasão do Palácio Iguaçu, mais justificável, portanto.
A violência anestesia quem a pratica seja no lado da repressão seja no do ativismo sindical: e ela reclama do agente justamente mais força tanto no protesto quanto na dissuasão, uma espiral do ódio, loucura insaciável.

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