Política Atualizado em 25/04/2015, 23:00
Luiz Geraldo Mazza
O Paraná nunca foi cenário tão forte da vida brasileira como nesses dias. É evidente que não se pode comparar os fatos de hoje aos do Cerco da Lapa em 1894 e que definiriam os rumos da Revolução Federalista. Uma coisa é tempo bélico, outra a esteada da democracia que estamos vivendo.
A projeção do juiz Sergio Moro, já consagrado anteriormente no episódio da CC5-Banestado em que o artista-vilão era o Youssef, e o andamento da Lava Jato por seu ineditismo nos transforma em polo nacional. Pena que não tenhamos mais gente da terra em destaque em condição tão oportuna: no mensalão tivemos além do Procurador Geral da República, também aqui formado, Antonio Fernando de Sousa que fez a denúncia e os deputados federais Omar Serraglio, relator da CPI, e Gustavo Fruet, um leão em plenário.
Nosso governo, como os demais em qualquer nível, municipal, estadual ou federal, arrasta-se no visgo do ajuste fiscal e para complicar a situação vê-se como alvo indireto de episódios de corrupção como o da quadrilha que tomou conta da área fazendária em Londrina, isso sem falar no comprometimento de seu parente distante, Luis Abi Antoun, nos negócios públicos. E seu esforço em superar a contingência fiscal o obriga a mexer no fundo de pensão estadual, alvo permanente da má intenção do Executivo que se recusa a contribuir com a sua cota no processo e isso desde antes da criação da ParanaPrevidência ao tempo ainda do saudoso IPÊ, Instituto de Previdência do Estado, que ao menos garantia assistência médico-hospitalar de qualidade aos servidores.
Tudo isso cria um clima negativo para Beto Richa, até então habituado a curtir o lado bom, triunfalista, do poder público. No momento todas as iniciativas o colocam em posição de fogo, alvo das críticas, o que jamais havia ocorrido ao longo de sua carreira ascensional na prefeitura da Capital e depois no governo.
O momento não é bom para prospecções, mas há a convicção na área técnica, justo na Secretaria da Fazenda, que adotadas as medidas duras e amargas, e em relativamente pouco tempo o cenário muda. Hoje ninguém imagina Beto Richa a disputar no próximo pleito uma vaga no Senado, que se renovará em dois terços, duas cadeiras, portanto. Se a conjuntura mudar, e o Paraná como economia tem tudo para isso, como temos verificado no indicador de empregos principalmente no interior, o governador estará em outra atmosfera.
Não pode em hipótese alguma deixar de ter um papel ativo na política e já fez algo que indica mudança de atitude como o encontro com o vice-presidente, Michel Temer, sua participação no Codesul e especialmente a opinião emitida contra a precipitação do "impeachment" na linha de FHC e José Serra. Urge ser um protagonista em todas as dimensões da problemática nacional, mas tomando posição mais vigorosa também nos embates provinciais. Nesse sentido precisa ter mais comando do que "co-mando", isso é participação forçosamente descentralizada em menor escala.
Ao desautorizar a polícia, tanto a civil quanto a militar, a tentar forçar jornalistas a revelar as fontes do noticiário negativo mostrou-se à altura do papel de quem como deputado fez a lei de indenização das vítimas da violência do regime militar. Esse ativismo é indispensável porque é impossível que tenha em tão curto espaço de tempo queimado a poupança de sua vitória eleitoral, em tudo inquestionável e arrasadora.
Se a emergência da crise torna difícil a queima de etapas é preciso que se reconstrua numa agenda positiva, sem os vícios da tradição triunfalista, o papel que todo governo tem desempenhado em tempo de crise como se deu com Ney Braga (incêndios florestais), Munhoz da Rocha (geadas arrasadoras), Moisés Lupion (recessão fiscal) e tantos outros para que haja um intérprete das aflições populares, mas também das esperanças. Ainda que carregar o andor da austeridade e do sacrifício numa arrancada seja difícil, mas não inviável.





