LUIZ GERALDO MAZZA
Pôr a mão na...
Num determinado momento de nossa política o ator Paulo Betti, engajado no lulopetismo como tantos, principalmente na época dos bons ventos e quando começava a enordoar-se a bandeira da ética, usou a expressão ''às vezes é preciso pôr a mão na merda!'' Observa-se com o desdobramento da Lava Jato que as mudanças havidas nos chunchos brasileiros, especialmente de empreiteiros e prestadores de serviços, simplesmente mudaram de escala para proporções ora inimagináveis e viraram praxe, o que os reveste de legalidade institucional obviamente aparente como se dá com os desvios de rotina aqui e na Vila dos Anzóis.
Claro que na observação do ator há um pouco daquela forma acadêmica e bem comum nas áreas intelectuais de partidos pretensamente revolucionários de ajustar os acontecimentos aos ensinamentos de marxistas históricos como no caso de Gramsci. O fato é que no gesto de punhos cerrados do André Vargas diante do presidente do STF como no do aceno manual e triunfal de Zé Dirceu depois de condenado pelo mensalão há algo com uma aura revolucionária em que tudo o que fizeram foi pela causa maior - a de reduzir as desigualdades brasileiras como o feito cumulativo alegado pelo governo de Lula e Dilma.
Essa fantasia de que estão transformando a realidade brasileira funciona como contraponto aos desvios e para a maioria esmagadora do público não há como confundir vilões como heróis e o melhor vem da ordem e não da sublevação, justamente a que oferece resistência tenaz à corrupção desenfreada e prende, pela vez primeira, na história brasileira, tanto colarinho branco.
Um desdobramento
Tudo o que está ocorrendo é um desdobramento natural do processo de ocupação do Estado também em escala nunca havida no Brasil. É verdade que o mensalão mineiro é do PSDB e precede o da base aliada lulopetista como também deve ter ocorrido alguma hediondez, mas sem tantas impressões digitais, nos afanos possíveis em metrôs e trens em São Paulo.
Na defesa do tesoureiro Vacari, muito inteligente, ele mostrou, de forma didática, que as empreiteiras do Lava Jato deram grana quase em dimensão igual para o PT e PSDB e irrigou a todos. Isso também não espanta e não dá para ver tucano posando de virgem no imenso bordel sem algum engulho.
Essa descrença nos partidos de um modo geral, essa orfandade política, deve ser uma das marcas das manifestações de hoje em todo o país, cada vez mais apartidária, menos confessional se não em torno do ideário irrenunciável da participação cívica. É verdade que nem tudo o que se pretende nessa onda é razoável como por exemplo o ''impeachment'' da presidente Dilma Rousseff, uma ruptura ainda não amadurecida e clara. Claro que isso dá o tom agudo e severo das manifestações, mas é desequilibrado.
O vitimalismo
Não devemos nos esquecer de que uma das constantes em todas as crises nacionais há a marca indelével do ''vitimalismo'' que nem sempre consagra o herói e pode, em nossas práticas, beneficiar o vilão. Jânio Quadros, com sua renúncia, na verdade uma trama para voltar nos braços do povo e que não deu certo, tentava valer-se dessa condicionante brasileira que alguns anos antes, 1954, beneficiara Getúlio Vargas com o suicídio. Lembro claramente do 24 de agosto, quando me dirigia à Faculdade de Direito, quando ouvi nos altofalantes a notícia traumática do suicídio de Vargas. Nos dias anteriores boa parte da população diante do cerco dos militares da Aeronáutica no IPM do Galeão e da turma da União Democrática Nacional, UDB, açulada pelo Carlos Lacerda era a favor da queda do caudilho, porém isso mudou radicalmente com a tragédia como se um ato de purgação de culpa coletivo contagiasse o povo.
Deixei de ir à aula para ficar em casa solidário a meu pai, getulista, e com quem tanto discutia, à maneira italiana, na hora do almoço, por causa das denúncias. Não resisti ao fulgor do vitimalismo.





