Luiz Geraldo Mazza
É tão esmagadora a vantagem obtida pelos professores com suas manifestações que ao governo restou a perspectiva de ir queimando seus argumentos na medida em que concedia tudo o que era pedido
A reversão possível
Essa manifestação-monstro da semana que passou, a maior até hoje vivida nos meios sindicais, deixou o governo encurralado porque fez concessões seríssimas e que não foram vistas como consistentes para o encerramento da greve, conquanto não significasse o fim do diálogo que tende a se tornar tedioso pela circunstância de que a cada avanço aparece uma nova demanda fora do contexto. Habituado à cultura da gastança, o governo (vale dizer os seus componentes) não se sente bem como pregador da sobriedade e frugalidade. Não assenta bem aos seus integrantes, habituados ao oba oba e ao clima de lua de mel com o poder, vestir trajes franciscanos ou de trapistas, que seria o caso para melhor identificar a densidade da crise.
É tão esmagadora a vantagem obtida pelos professores com suas manifestações, até pelo apoio da opinião pública, que ao governo restou a perspectiva de ir queimando seus argumentos na medida em que concedia tudo o que era pedido. E de repente fica sem trunfo para convencer a categoria a encerrar a greve. Como o imediatismo é que move os digladiantes - o governo tentando dar tudo para sair do sufoco botando em risco todo o plano de ajuste fiscal (o que pode implicar na saída do super-secretário da Fazenda pela queima dos pontos basilares do programa) e os professores aprofundando o radicalismo e pedindo cada vez mais - nenhum dos lados pensa no médio ou longo prazo como se isso estivesse a uma distância de anos-luz.
Médio prazo
Politicamente encurralado, e isso se refletirá nas eleições municipais com a oposição recuperando espaços perdidos, a tarefa imediata é a de restabelecer, o quanto possível, o calendário escolar vigorosamente afetado. Já não há mais o que conceder e o professorado já está às voltas com as broncas dos pais, como sempre se dá em qualquer parede. A retirada é a questão e concede-se tal decisão a uma gigantesca assembleia o que engole mais uns dias. Já no diálogo houve a insinuação de que se não saísse a folha de fevereiro a coisa ficaria incontrolável, isso é consideram sagrado o pagamento dos dias parados como se isso fosse, como dizem os advogados, questão de lana caprina. Poder leva à arrogância, como se deu aí e como ocorreu anteriormente com a atitude próxima do despotismo e da tirania partida do governo que acreditava na força miraculosa do "tratoraço" para derrotar os professores.
Nesse festival de insanidades não dá para pensar sequer no médio prazo como mobilizar força para recuperar o tempo perdido e mais do que isso o atraso que andamos a revelar nas avaliações do Enem, coisa que parece em momento algum preocupar os mestres como se isso não lhes dissesse respeito.
Sem fé
O governo não acredita em si mesmo e no seu potencial retraído. Pior, porém, é não crer em algo palpável: a capacidade de recuperação da nossa economia. Foi essa visão - às vezes se valendo da malícia de atribuir a si a ligação entre Curitiba-Ponta Grossa feita por Lupion - que levou Ney Braga a fazer uma revolução no Paraná a partir de 1961 mesmo com minoria parlamentar. Seu plano de obras facilitado pelo apoio da oposição majoritária, principalmente do PTB, na criação do Fundo de Desenvolvimento Econômico (percentual acrescentado ao Imposto de Vendas e Consignações que precedeu o ICMS) que capitalizaria a Codepar e depois o Badep ditaram esse novo horizonte que empolgava e permitiu uma aliança para o Senado em 1962 elegendo Amauri Silva e Adolpho Franco num pleito em que foram candidatos ex-governadores como Moisés Lupion e Bento Munhoz da Rocha Neto.
Aquilo que sobra em empatia a Beto Richa escasseia em energia. Carece de pegada para impor-se no grupo que comanda e que sabidamente não controla e falta disposição para mandar, ditar as regras em tática ou estratégia. Com essas credenciais, num ordenamento recuperado, poderia ser um forte candidato à Presidência, mais do que qualquer outro no Paraná. Se é difícil recuperar o equilíbrio, mais complicado ainda é ganhar tonalidades que sempre lhe fizeram falta: vontade para impor-se e fazê-lo com energia.





