Política Atualizado em 21/02/2015, 23:00
LUIZ GERALDO MAZZA
"Essa censura pós-produção é um dos sinais fortes da tentativa de colocar a arte popular a favor de quem está no poder"
A liberação apropriada ao carnaval se torna cada vez mais elástica: num dos carros alegóricos das escolas de samba no Rio havia grande número de mulheres bonitas com os seios à mostra. Para boa parte dos estrangeiros, que estava nas arquibancadas, aquilo não espantava o que revela nossos resíduos de conservadorismo já que não foram poucos os que se alarmaram com o quadro.
Carnaval é transgressão por natureza, vai muito além do "carne vale" como uma exaltação da carne e uma crítica aos costumes como se deu aqui com o carro que caricaturou o camburão com os deputados estaduais e acabou multado pela infração de haver alterado a composição da cor do veículo, o que soou para muitos como uma vingança do pipoqueiro, em punição formalmente correta. Por sinal que a APP não tem nada a ver com a iniciativa, embora beneficiada por um quadro crítico que apenas acumula energia em favor de sua arregimentação.
De repente o fato mais referido do carnaval deste ano será esse lance do que o feito da Mocidade Azul na avenida. Por sinal que a vitória da Beija Flor no Rio que homenageou a Guiné Oriental deu margem ao mau humor dos politizados que viram naquilo uma celebração ao ditador africano quando ficou esclarecido que os R$ 10 milhões recebidos pela promoção foram dados por empresas brasileiras que lá operam e muitas delas envolvidas nas tramas da Lava Jato. Só falta agora os radicais alegarem, o que jamais provarão, que a Beija Flor é também uma parasita da Petrobras.
Dos episódios clássicos de Curitiba e isso dos anos 1930, século passado, foi o de um grupo de "sujos" que saiu na então Rua XV, palco da folia, com três diabinhos açoitando com chicotes e garfos três padres e que se ameaçou os participantes da charge da pena máxima de excomunhão. Descontado o exagero, o fato é que na ditadura de Getúlio Vargas a preocupação da polícia política em torno dessas manifestações eram sistemáticas. Por sinal que os autores de marchas faziam o mais abominável do humor, o a favor, como os chargistas da revista "Crocodilo" da União Soviética. Da pregação dos anos 1940 há uma exaltação ao presidente que começa assim "Quem é que usa um cabelinho na testa// e um bigodinho que parece mosca// só cumprimenta levantando o braço// Eh, eh, eh, palhaço!// Quem tem o gê que representa a glória// o vê que ficará na história// e um sorriso que nos dá prazer:// eh, eh. eh, vitória!" Era um caso de engajamento cívico-político que fazia esquecer a fase de namoro entre Getúlio e Mussolini e Hitler, aí impiedosamente pichado e posto em confronto com o brasileiro como um herói das forças aliadas.
Nos anos 1950 tivemos outra: depois do exílio de Vargas em São Borja, ainda que com mandato de senador, o caudilho vence o pleito de 1950 e tivemos a marchinha muito bem sacada "Bota o retrato do velho outra vez// bota no mesmo lugar// o sorriso do velhinho// faz a gente trabalhar." Ora estávamos diante da redenção do retrato, colocado antes como culto ao ditador, e com a frase clássica "O Brasil confia no chefe da nação". Mais recentemente tentou-se beneficiar a campanha presidencial de Ulysses Guimarães com a marcha do retrato do velho. A distância de carisma era imensa.
O primeiro samba gravado de Donga "Pelo telefone" já aborda algo típico dos costumes da época a relação dos contraventores com a polícia. Dizem que na ditadura trocaram a expressão "Chefe de Polícia" pelo chefe da folia que afinal dá a dica de uma casa de batoteiros, em que proliferam jogos de azar. Como também se alterou naquele "bonde de São Januário" a referência ao otário que ia ao trabalho e trocaram a expressão por operário de acordo com as conveniências construtivas do regime. Essa censura pós-produção é um dos sinais fortes da tentativa de colocar a arte popular a favor de quem está no poder e detém, sobretudo, a força.





