LUIZ GERALDO MAZZA
Radicalismo vitorioso
Essa crise que marcou a semana com a invasão do legislativo e o cerco do seu entorno o que impediria a votação do pacotaço de Beto Richa é exemplo extremo de resistência civil. Sua utilização, se frequente, tornaria inviável qualquer ideia de lei e ordem. Tudo uma consequência dos nossos baixos padrões de democracia e da nossa compulsão quase religiosa pelo populismo.
Estamos com o mais prolongado convívio democrático da história, todavia ainda persiste uma falta de equilíbrio entre os dois princípios que se autorregulam, o da liberdade e o da autoridade. O senso de autoridade desapareceu em meio às refregas ao ponto de os próprios milicianos terem se recusado ao uso da força a que estavam autorizados por ordem judicial. E o senso da liberdade extrapolou qualquer medida quando houve a invasão do parlamento e com ele a sensação de que a pressão levaria à vitória, daí terem muitos até lembrado da Queda da Bastilha. Para manifestante exaltado derrubar um orelhão já tem igual significado, especialmente quando imantado pelo sentido da multidão e de sua engrenagem difusa e multifacetada.
Habituados a levarem a melhor em todas as marchas e greves. Notadamente os professores, que foram a maior expressão do movimento, se tornaram muito mais fortes quando submetidos ao teste do pacote. Do jeito que estavam os recuos do governo, como os referidos aos quinquênios e à progressão, pareceram o fato de estímulo para exigir mais e até a retirada do projeto, que passou a ser a tese de toda a articulação sem o que não se teria ganho coisa alguma. Objetivo não era só derrotar o governo, mas humilhá-lo, o que de certa forma acabou acontecendo.
Acumular energia
Quando os deputados souberam que a massa iria divulgar o nome dos votantes a favor do pacote alguns ficaram ainda mais retraídos, esquecendo do placar das Diretas Já da Boca Maldita quando listaram os contrários e surpreendentemente houve mais vitórias eleitorais deles do que dos favoráveis à emenda Dante de Oliveira. A determinação dos manifestantes tenderia a crescer se houvesse repressão, ingrediente que a alimentaria como sempre acontece: o ensaio havido (lançamento de bombas como a entrada de deputados sob escolta) foi suficiente para fortalecer a arregimentação.
Pelo jeito o pânico esteve mais tempo do lado da bancada governista, apesar das várias defecções, do que dos obstinados manifestantes. E o intervalo do carnaval não será suficiente para desarticulá-los: voltarão com tudo, ainda mais com a restauração da audiência das comissões técnicas que seria suprimida com o tratoraço que é, a despeito de antiético, absolutamente regimental, tanto que foi usado várias vezes como praxe em emergências. Só que agora não havia como reduzir a tensão, já que a oposição estava dando toda a cobertura e deixara de ser minimalista como foi condenada no processo eleitoral.
Rumo ao liberticídio
Esse descompasso entre os princípios da autoridade e da liberdade, regra de ouro num sistema de lei e ordem, se dá por causa da nossa tolerância com o populismo, velho cacoete que historicamente nos persegue e infla com figuras messiânicas como Getúlio Vargas e Jânio Quadros, o primeiro menos farsante. É notória a falta de pulso das nossas autoridades quando desafiadas e isso em qualquer circunstância: o ataque aos caixas eletrônicos como a escalada de assassinatos são olhadas como rotina para a qual se dispensaria resposta. Um exemplo corriqueiro está na forma como grupos sociais reagem a um acidente de trânsito bloqueando ruas e estradas e queimando pneus. Ignora-se, de forma absoluta, que essas ações cerceiam o direito alheio e a autoridade a tolera para mostrar-se compreensiva porque consciente também das suas fragilidades.
Como a justiça não soube tirar partido do estelionato eleitoral que favoreceu Requião com o Ferreirinha (perdeu-se ali a oportunidade de uma punição exemplar por falhas da justiça) pelo jeito pouco extrairemos desse drama sério vivido nesta semana do Centro Cívico. Há material rico para mostrar os abusos e as tolerâncias inaceitáveis ocorridos.





