LUIZ GERALDO MAZZA
E se não tiver?
Há um personagem nos clássicos do Jô Soares de um garçom refinado que faz perguntas detalhadas aos clientes ''se deseja o arroz irrigado do Vietnã'', se pretende comer ostras cruas do Maine ou caranguejos gigantes do Chile. E após um diálogo quanto a detalhes do preparo do prato, vira-se ao freguês e pergunta ''e se não tiver'' como apelando a um cardápio substitutivo.
O governo paranaense está lembrando o personagem no recuo do salamargo que preparou, especialmente, ao funcionalismo com o pacotaço diante das primeiras reações do professorado a quem concedeu mais de 60% de reajustes no seu primeiro mandato. Ele poderia deixar o cliente, no caso o professorado ou o funcionalismo de um modo geral, meio perplexo anunciando ''e se não tiver nem como pagar a folha de fevereiro'', o que fazer?
O saque foi dado como blefe terrorista, pois apenas uma vez, lá no fim dos anos 50 do século passado, na segunda gestão Lupion, atrasou o pagamento dos barnabés. Raciocinar sob tal perspectiva como a do cliente que faz seus pedidos e os detalha, estimulado no diálogo com o garçom, e ouve o ''e se não tiver'' entra num processo de impotência. O público não acreditou naquilo que não faz parte das nossas tradições comportamentais: a dos compromissos com a austeridade pelo fato de nunca ter vivido tal tipo de experiência de escassez extrema. É desconfiado, acha que estão escondendo o jogo e daí parte, como se fez, para a greve o que passa a contaminar também as universidades. Bastou uma checagem preliminar e deu a impressão de quem blefava era o governo.
Qualquer recuo - e alguns deles já foram cogitados como o dos quinquênios que se constituem em direito adquirido - tira um pouco da densidade do aceno sombrio e pode até nos devolver ao clima da anedota em que estamos mergulhados na base da pura encenação.
Greves
Outras categorias se entusiasmaram com a receptividade da greve da APP-Sindicato e botaram essa questão como prioridade. É que no embalo mesmo categorias com escasso poder de mobilização podem se dar bem.
Mas se for verdade a notícia de que a folha de fevereiro está ameaçada obviamente um movimento paredista não garantirá coisa alguma. Ainda mais, por exemplo, se a turma da arrecadação e da fiscalização parar.
Copa
O Tribunal de Contas está mostrando em relatórios o que o governo estadual deixou de atender nos compromissos da Copa do Mundo. Obras de mobilidade e outras não foram entregues e algumas ficaram pela metade.
Aliás, uma das maiores farsas foi a da Copa do Mundo: não tivemos o rush de turismo alegado, nem nacional nem regionalmente, e o que ela fez foi reduzir a quase zero a atividade econômica, uma das causas do agravamento da recessão, na qual estamos atolados até agora.
Sintonia
Se o governo estivesse mesmo determinado a entrar num ciclo de austeridade, a primeira providência seria cortar o reajuste do governador e secretários e também dos deputados. Isso teria mais força simbólica do que a ameaça de não haver pagamento dos barnabés em fevereiro. Essas coisas conflitam e dão a entender que a dureza é seletiva, nada mais.
Conflito
O conflito entre Urbs e Comec teve um mérito: a integração do sistema de transporte foi mantida e o órgão estadual vai ter que rapidamente acertar suas rotinas não apenas com relação às linhas metropolitanas, mas as demais que atuam na região e pode surpreender-se com as questões de manejo principalmente o tarifário.
Folclore
Muito bonita, a professora de espanhol, Maria Vítola, era constantemente alvo de amáveis gracejos dos alunos. Um dia escreveu na lousa: "Las chanzas de los chicos no me chocam". Um recado de fina categoria pedagógica.





