Luiz Geraldo Mazza
O suspense da moda
Há gente que acredita ser um clone do Hitchcok com a manipulação do suspense. É o que se dá agora com as notórias dificuldades que o governo teve para pagar a folha de janeiro do seu quadro de ativos e aposentados. Tanto que se viu impelido a buscar socorro nos caixas disponíveis em outros poderes, como de resto faz na emergência com os saldos de verbas industriais no Detran, Junta Comercial. Esse azáfama é especialmente de novembro porque são três folhas de R$ 1 bi e 400 milhões para pagar entre o fim do mês e véspera do Natal. Não há organismo que resista e como no primeiro trimestre a arrecadação cai, os riscos aumentam como se deu nesses dias. Agora a pergunta: e fevereiro como será?
Primeiro o tarifaço e depois o pacotaço, este até agora esperando uma clara decodificação, mas já arregimentando sindicatos para greve, evidenciaram que a época é de vacas magras, de grama seca, esturricada, quase um cenário de Graciliano Ramos ilustrado por Portinari.
Resposta clássica
Em homeopatia há aquela máxima de Hanemann segundo a qual o igual neutraliza a doença, Similia similibus curantur, no fato de que a exasperação dos sintomas, aparência de mais doença, marca o início da terapia. Como é que se combate a recessão e a crise se não com greves como o mundo está cansado de assistir e, às vezes, até com surpresas como a vitória dos radicais de esquerda na Grécia e que dificilmente alterará para melhor a situação do povo.
Brecar o início do ano letivo - essa é uma das possibilidades cogitadas pela APP Sindicato, PHD em greve - pode ser uma das consequências políticas do pacotaço. O governo sempre se curvou aos professores, tanto que quando decidiu não pagar a antecipação das férias isolou os mestres da restrição; também acabou atendendo todas as demandas da hora-atividade, por exemplo, ou tornando palavra morta a decisão do Conselho de Gestão que bloqueava o pagamento de atrasados de qualquer natureza. Não está, portanto, habituado a dizer não e terá que fazê-lo pela vez primeira. De outro lado se não houver recursos - e a escassez é tão profunda que contingenciou 25% do orçamento de R$ 50 bi - de nada adiantarão as greves e ainda mais se o pagamento do mês não sair.
Greve de verdade é essa em que as partes enrijecem e a fazem configurar como aquilo que os existencialistas chamavam de "situação limite" e não o jogo solerte das encenações do paredismo facilitado seja pelo patrão, pela justiça do trabalho, pela deserção. Que o professorado é capaz de lançar o governo nas cordas, todos sabem; o que não vimos e pode acontecer é a autoridade mostrar que tem vida e resistir para que sua experiência de austeridade não tenha vida tão curta.
Na greve, como na vitória inútil da esquerda radical na Grécia, há um elemento de coesão, ainda que fantasioso, na esperança, nutriente de primeira ordem.
Decodificação já
O clima psicossocial é de fermentação e radicalismo: os grevistas têm o indispensável, o "know how", o "modus operandi". Já o governo - e aí não se trata da figura e do estilo do governador Beto Richa - não tem a tradição da recusa, do veto e sim o da composição e do acerto.
Entra, portanto, destreinado, mas reúne argumentos: havia 12 mil professores fora da sala de aula, isso é colocados à disposição até de políticos, e que recebiam ainda por cima o auxílio transporte, recentemente abolido. Essas situações anômalas não são pontuais, mas decorrentes do assistencialismo primário que marca os nossos procedimentos. E para substituir esses mestres o governo se via obrigado a nomear outros do quadro provisório.
Mesmo, porém, que o governo esteja cheio de razão é indispensável que no andamento das primeiras interlocuções se faça a decodificação genérica e específica do pacotaço não para edulcorá-lo, mas para tirar dúvidas.
Se sair a folha de fevereiro já é uma esperança melhor do que a greve.





