"A hora é de penitência também para a oposição já que se mostrou incompetente na vocalização desse estado de coisas que cabia a ela denunciar com todas as letras"

Guerra declarada
O pacote de restrições fiscais é indispensável e funciona como penitência para o governo abusivo. Aliás, isso vem de longe e a responsabilidade cabe a mais personagens do que Beto Richa, afinal herdeiro de situações anômalas desde Lerner e que se agravaram nos dois períodos de Requião.
Embora com lastro na maioria parlamentar, disciplinada na obediência, não poderá evitar conflitos como as greves, uma delas já cogitada pela APP-Sindicato, e alguns choques no Judiciário em relação a algumas dessas medidas que agridem direitos adquiridos e princípios constitucionais.
O contigenciamento de 25% do orçamento, cerca de R$ 13 bilhões, isso é submetido a bloqueio e o melhor remédio para conter a sanha da gastança, dá uma noção da gravidade do diagnóstico e da agudeza do remédio. Dureza e menos concessão para devedores com programas de recuperação fiscal que assegurem que sonegadores responderão patrimonialmente pela omissão. A Dívida Ativa de meio orçamento é, de fato, uma patologia incômoda no cenário recessivo.
Pela primeira vez em nossa história, cuja tradição é de triunfalismo e oba-oba por causa de nossa inesgotável capacidade de recuperação, na verdade do mercado, do trabalho das pessoas e não do Estado imprudente que gigoloteia o esforço social comum. Tanto é que ele, além de ineficiente, tem sido um ator autofágico entretido nas artes de deglutir a arrecadação e ainda ficar devendo como se dá há tanto tempo. Falava-se que carecíamos de uma ideia-força: está aí uma que faz do sacrifício uma obra de reconstrução. Aliás, etimologicamente sacrifício é o sagrado ofício, agora o de defender a austeridade, a discrição, o de em lugar das havaianas usar as sandálias franciscanas.

Riscos
É, por isso, que o governo não pode continuar dando recursos que não tem no subsídio do transporte coletivo metropolitano colocado sob ameaça com as armas da chantagem do prefeito Gustavo Fruet. Derrotas políticas - em greves e atos públicos, passeatas - serão comuns para os dois governos e que se tiverem um mínimo de sensibilidade não transferirão suas responsabilidades.
Ontem, no TRT, nova rodada sobre aumento de cobradores e motoristas, com a greve imaginada para jogar a autoridade, outra vez, na parede.

Sacoleiro
Assalto a ônibus de sacoleiros é rotina como o ataque a caixa eletrônico: um assalto na BR-116 terminou em Campina Grande com as vítimas colocadas no bagageiro. Num caso como no outro falta de serviço de inteligência, velha deficiência estrutural.

Dostoievski
Carecemos de um Dostoievski para retratar o mundo das masmorras em presídios e penitenciárias: o uso de correntes nos pés e nos braços enquanto se acham nos parlatórios; após as visitas de familiares, o emprego da raquete para monitorar os internos despidos e, às vezes, empregado como meio de tortura em órgãos genitais e em algumas regiões do corpo. Junte-se a isso a restrição à hora de sol e má qualidade da alimentação e temos ainda a superlotação.

CPI
Até hoje não houve uma só CPI que funcionasse no Legislativo e não será certamente essa desejada por Tadeu Veneri para a situação fiscal. Afinal, os dois documentos: o tarifaço e o pacotaço clareiam mais do que qualquer bate-boca. O governo se confessa falido e daí: haveria pena maior do que poupar-se do embalo anterior, da lua de mel com o poder? Aliás, a hora é de penitência também para a oposição já que se mostrou incompetente na vocalização desse estado de coisas que cabia a ela denunciar com todas as letras.

Folclore
João Batista Moraes, executivo do grupo Paulo Pimentel, passa, nervoso e apressado pela Boca Maldita e quando alguém lhe pergunta o seu destino lá vem a resposta de bate-pronto: ''Vou telefonar para Shirley Temple!''.

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