Da direita à esquerda

No recente livro sobre San Tiago Dantas explora-se muito o fato de ter imigrado do fascismo para uma postura centro-esquerdista. O que, aliás, foi uma constante entre os integralistas e seus uniformes militarizados, sob o comando de Plínio Salgado, bastando lembrar que figuravam nessa hierarquia, a do Clube dos Quarenta, não apenas San Tiago como também Alceu Amoroso Lima, o bispo de Olinda, dom Helder Câmara. Além deles, tivemos tantos outros com incursões assemelhadas como no caso paranaense com Nivaldo Kruger ou Ivan Luz, esse mais aberto ao liberalismo, e ainda o de um salto radical dos galinhas verdes para a esquerda Roland Corbisier que chefiava a fábrica de ideologia do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), fermento do nacional trabalhismo do pós-Getúlio Vargas e sob a égide de João Goulart, de qualquer forma o catalizador de ações antiamericanas.
Juscelino Kubitschek facilitou a criação do ISEB como uma corrente para discutir no plano civil outra usina ideológica, a da Escola Superior de Guerra (ESG), já que essa fazia pregação da aliança geopolítica pró-Ocidente e que era fortíssima no meio militar como consequência da 2ª Guerra Mundial e da vitória sobre o nazifascismo e se estendia ao meio civil pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra na qual se incluíam parlamentares.
Há, aliás, uma referência nas entrevistas do projeto Bamerindus de história oral, do qual participei, de que o coronel Vernon Walters, que funcionara como oficial de ligação das tropas americanas com as brasileiras na Itália, mais tarde Chefe da Cia, esteve em Curitiba em contato com o general comandante da 5ª Região Militar, Cordeiro de Faria, para sugerir a criação no país da Escola Superior de Guerra, difusora da democracia e oposta ao comunismo.
Os comandantes expedicionários, já no campo de batalha, firmaram compromisso com esses ideais e na chegada ao Brasil providenciaram a queda de Vargas e é em função desse amálgama ideológico que vão intervir em 1955, depois em 1961 e finalmente em 1964. Acataram a volta de Getúlio, mas pressionando duramente como o fizeram no IPM do atentado contra Carlos Lacerda e que redundou na morte do major Vaz, a caricaturada República do Galeão, que Vargas superou com seu dramático suicídio e com isso garantindo a posse de JK.

Nacionalismo

Muitas das teses dos anos 50, entre elas a do nacionalismo e a da substituição das importações, posta como alavanca do desenvolvimentismo, que perderam o sentido no mundo globalizado, ainda fazem parte do ideário de quadros do lulopetismo e de políticos como o nosso senador Requião. Pois o nacionalismo, levado às consequências literárias com o verde-amarelismo de Plínio Salgado e do multifacetado Cassiano Ricardo, era uma das tonalidades afetivas mais fortes do nazismo. E que levava também para opor-se aqueles sociais-democratas que surgiam como alternativa ao comunismo, o timbre socialista, tanto que à maneira do nosso PT era o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, expressão nacional e não internacional.
Punha, portanto, o trabalho e não o capital como virtude de ofício para figurar-se como "socialista". Mas era o horror ao liberalismo que tinham como distorção burguesa que melhor os definia e aproximava do outro socialismo real na supressão da liberdade.
Um fenômeno curioso também foi o da evasão de quadros da esquerda, até mesmo da radical, ao liberalismo em decorrência dessa constatação, pelo menos no que conhecemos de "socialismo realmente existente" eram as marcas fundamentais do policialismo e do impulso liberticida na mesma em que a "construção do novo homem" era ameaçada pelos liberais. Isso se deu em escala mundial e nós, embora o nosso atraso em termos de república e de capitalismo tardio, não
podíamos ficar à margem do processo. Nos dísticos em que se pedia pão já se exigia, como fundamento, a liberdade. E a busca da igualdade, esse sim uma angustiada pregação da esquerda, jamais se poderia fazer sem a liberdade.

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