Limites da ironia
A aspiração máxima de um republicano radical é a laicização absoluta, a remoção de sinais e códigos fundamentalistas de uma ordem leiga, o que não é fácil por sermos obrigados a conviver com teocracias como se dá em boa parte do mundo. Nossas condicionantes cristãos aparecem no texto constitucional com o ''invocando'' ou afirmando-se ''sob a proteção de Deus'' e ainda com a introdução de crucifixos nas paredes em estabelecimentos públicos.
Apesar do razoável nível de convivência entre religiões diferentes temos um potencial para explosões como a daquele bispo pentecostal que chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Lembro também, no preâmbulo do golpe em 1964, a carga contra um chargista do jornal ''Última Hora'' que colocou a face de Pelé no corpo da nossa padroeira.
Como estamos perto do Carnaval, é hora de lembrarmos de irreverências com a Bíblia como a do Velho Testamento: ''Uma folha de parreira// uma Eva sem juízo// uma cobra traiçoeira// lá se foi o paraíso!"; Ou aquela mexendo com o Islã de forma graciosa ''Vem odalisca pro meu harém// vem, vem, vem// faço o que você quiser:// pelas barbas de Maomé// não olho mais pra outra mulher!''.
Para uma época em que se dessacraliza Cristo e se o apresenta como executivo de pastinha 007 na Campanha da Fraternidade ou ainda na ópera rock ''Jesus Cristo superstar'', a tolerância é elástica e assim mesmo há reações como a do filme ''Je vous salue, Marie'', de Godard, que sob o ponto de vista estético é fragílimo. Tudo isso está muito longe dos ''Versos Satânicos'' ou das sátiras do cartum francês usadas como justificativa para o massacre recente.
Aqui mesmo no Paraná tivemos uma situação tida como herética do pintor Vicente Jair Mendes que explorou um Cristo sexuado, isso é com o pênis à mostra (no menino Jesus se aceita como a iconografia consagra), e as cautelas persistiram pois a tela, como os livros enrustidos da Biblioteca Pública (dentre eles ''Os sábios do Sião'' e ''Mein Kampf'', de Hitler), ficou em lugar de difícil acesso. O papa condenou o bestialismo dos fanáticos, mas não deixou de apontar os limites nas agressões e gracejos com o sagrado alheio. A noção de liberdade, como pregava Hanah Arendt, está na visão do outro. Se ele não for livre, inclusive para opor-se a nós, também não somos.

Um dueto
Consolida-se na primeira quinzena do governo Beto Richa a noção dos dois pilares secretariais com o fazendário Mauro Ricardo Costa, esse com aura de salvador porque incumbido do ajuste fiscal em terreno minado, e o Chefe da Casa Civil, ontem empossado, Eduardo Sciarra, que fará a interlocução, a um só tempo, de caráter político e técnico (administrativo). Londrinense, mas também fazendo carreira no Oeste (Cascavel), mostrou agudo talento em tarefas de coordenação da bancada federal paranaense. Sua posse foi das mais concorridas o que mostra o seu peso político na segunda gestão Richa.

Derrota
Uma pancada traumática ontem para o governo estadual: o Supremo Tribunal Federal concedeu liminar ao pleito da Associação Nacional dos Defensores Públicos contra o remanejamento de verbas do orçamento da instituição feita por Beto Richa. Os defensores públicos estão levando a luta por autonomia em nível nacional, daí a importância do feito. Na Procuradoria Geral do Estado há também uma corrente que luta por mais liberdade, conquanto opere como advocacia do governo.

Folclore
Ainda se apreciava na posse de Eduardo Sciarra na Casa Civil que, no governo, o mudo e mais discreto seria o Mauro Ricardo Costa, da Fazenda, por motivos óbvios, entre os quais o caráter sigiloso de muitas das suas ações, e o que mais falaria seria o mais novo secretário. Só que numa corrida de mil metros o Francischini, ponderou-se, já está com pelo menos a metade do percurso bem à frente como o que fala.

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