Conflitos históricos
Não poucas vezes, como se deu agora, ocorreram conflitos de interesses entre a Capital e o governo estadual no transporte coletivo. Numa delas a ousadia foi maior do que a mais recente: Moisés Lupion, governador, passou todo o sistema municipal para o órgão do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), a Divisão de Transportes Coletivos, isso é a que regula e fiscaliza o transporte interurbano. O jornalista João Féder mancheteou na Tribuna do Paraná: "Lupion ficou louco!"

Isso se dava em meio a um locaute das empresas que fizeram desaparecer da cidade toda a frota, mais tarde localizada e devidamente retomada por via judicial em São José dos Pinhais. Destacou-se no evento o ex-vereador Edgar Távora, de Londrina, militante do integralismo, que como procurador da gestão do centro-esquerdista general Iberê de Mattos conduziu a defesa da cidade e dos seus serviços públicos.

Anos antes disso, também em meados de sessenta, século passado, Ney Braga, primeiro prefeito eleito da capital, enfrentou um locaute, preferindo convocar carros militares para substituir os ônibus. Obviamente era uma saída clássica de emergência, com simbolismo significativo. É que a concepção mais moderna do sistema surge aí com outro militar, o coronel Alípio Ayres de Carvalho, que introduziria no Paraná as técnicas de planejamento com o "monopólio de áreas seletivas". Aqui não existiam empresas já que um "cartório" funcionava liberando o uso de autolotações que viajavam sobrecarregados e sem respeito mínimo a horários e frequência que só viriam depois.

Muitos empresários do transporte coletivo, como Erondi Silvério, eram do PSD, partido do governador.

Bloqueio à integração
A questão é geopolítica: o predomínio da experiência de Curitiba coloca em posição subalterna o órgão estadual representativo da região metropolitana, a Comec, hoje melhor estruturado. Da mesma forma que o Eixo-Metropolitano, nome anterior da "Linha Verde", integrava os municípios já conurbados com a capital, foi combatido por Requião que como governador não queria essa forma de interferência em Colombo, por exemplo. Anteriormente buscou impedir a integração das linhas e Lerner para mantê-las teve que ir ao Judiciário.

Na gestão anterior de Beto Richa como governador houve a novela do "quantum" seria o peso da área metropolitana para efeito de fixar o subsídio cabível à administração estadual. Houve atritos com o mesmo Gustavo Fruet e depois de trocas de ameaças, entre as quais a da ruptura da integração, lançando para o governo estadual todo o peso das tarifas e agora uma pesquisa de origem-destino mostrou que a contribuição estadual deve ser bem menor de acordo com aqueles cálculos. E essa é a pendência: a prefeitura quer receber R$ 16 milhões da Comec e esta deseja ver os cálculos refeitos para fechar um acordo definitivo e com um mínimo de traumas à cada negociação.

Aparências enganam
Nesse conflito de quinta-feira o sindicato de motoristas e cobradores ficou à espera dos tais R$ 3,8 milhões que a Urbs num passe de mágica fizera aparecer no dia anterior, mas que "cairia" na conta das empresas inadimplentes só no fim do expediente o que justificaria o bloqueio da Praça Rui Barbosa e Centro Cívico ainda pela manhã. O cerco do Centro Cívico dava uma aparente vitória política da prefeitura sobre o Palácio Iguaçu com os sindicalistas aceitando a tese de que a culpa maior por todo o drama era de Beto Richa.

Nem Fruet e muito menos Richa agiram, no episódio, com dimensão de estadista que aliás não têm. Na preocupação imediatista perderam uma oportunidade de fazer o convênio ser aperfeiçoado, agora com os indicadores da pesquisa mais recente, e com isso prevenir-se de danos ainda maiores em fevereiro quando da vigência do contrato coletivo dos trabalhadores e que obrigará a uma revisão tarifária de fôlego.

No episódio da semana, digam o que disserem os áulicos, ambos perderam. Feio.

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