Luiz Geraldo Mazza
Menos pompa
Não exagero quando digo que o governo paranaense incide num clima de lua de mel com o poder, a despeito da crise fiscal e que levou o governador Beto Richa, acatando conselho do senador José Serra, a convocar para a função de disciplinar as finanças o auditor Mauro Ricardo Costa que teve desempenho incomum nas prefeituras de Salvador e São Paulo e também no governo paulista.
É justo celebrar com alguma pompa a reeleição, mas todas as circunstâncias recomendariam sinais de contenção que para a ala mais carnavalesca seria, de certa forma, impensável, algo duro como uma tortura.
Já me referi à resistência que os políticos normais (pois eles assim se acham em que pese o mensalão e o petrolão) têm ao mínimo sinal de austeridade, uma das mais visíveis manifestações da direita no seu entender. Haja vista a prensa que exercem sobre o governo para estourar os gastos e a sistemática ação do PMDB no conjunto da base aliada para ganhar vantagens e mais postos no ministério.
Uma celebração discreta na posse seria, antes de tudo, um sinal de aguda sensibilidade para o momento histórico. Sabe-se que o ordenamento das contas se encontra infringindo a Lei de Responsabilidade Fiscal naqueles dois pontos-chave: o excesso de dispêndios com pessoal e a queda, por dois exercícios, dos investimentos em saúde abaixo dos 12% constitucionais.
De qualquer forma a resistência cultural à sobriedade é tenaz, sistêmica, ainda que ela servisse para timbrar uma visão renovada da realidade, seria enfim um sacrifício no seu sentido etimológico mais profundo que nasce da expressão ''sacro ofício'', isso é operação sagrada.
No mais, teremos a redobrada referência a uma disposição hercúlea de superação no mais batido dos clichês oratoriais.
Ezequias
A manutenção de Ezequias Moreira no primeiro escalão é olhada por muitos, é claro integrantes da banda de música, como um gesto de solidariedade do governador a um auxiliar apanhado em falta com aquela grosseira manipulação da sogra como fantasma no legislativo e que ampliava seus ganhos pessoais. É uma blindagem nada sutil do secretário do Cerimonial para evitar que tenha o seu caso julgado em primeira instância como se dá na Operação Lava-Jato pelo peso do foro privilegiado.
O fato é que essa extrema tolerância, ainda que justificada em razões de traço afetivo em função da atuação política e administrativa em comum e que vem dos tempos do pai, José Richa, mostra que quando quer, embora no caminho errado, o governador Beto Richa mostra coragem no agir. A questão é que depois do mensalão e do petrolão o País carece de exemplos másculos de moralidade para que não se difunda a ideia de que as infrações e desvios são normais e que por isso se situam num campo da previsibilidade aceitável.
O fato de Ezequias ter devolvido ao erário o que levou indevidamente não elide o crime praticado e se isso rendesse uma ''jurisprudência'' de caráter administrativo equivaleria ao seguinte: um acordão de recomposição da grana, o que aliás já foi pensado e arquitetado, absolveria empresas e seus respectivos executivos no desdobramento das ações na Petrobras e tudo voltaria como dantes no quartel de Abrantes.
Assim tem sido no Brasil e espera-se que os episódios dos metrôs e trens em São Paulo, alvo de investigações até internacionais, tire do PSDB esse ar de julgador o que aliás já havia acontecido com o mensalão que favorecia Eduardo Azeredo em Minas e com o mesmo operador que ampliaria a escala para as forças do lulopetismo em algo de dimensão liliputiana perto do petrolão.
Idealização
Há uma tendência, quando cresce o ceticismo político e jurídico, de levar o passado à idealização. É possível que não tivéssemos à disposição o nível de informação de agora. Mesmo do regime militar pouco se fala de desvios apesar de obras como Itaipu, ferrovia do aço, ponte Rio-Niterói. Na melhor das hipóteses temos que aceitar que os agentes eram mais discretos.





