Luiz Geraldo Mazza
"O 19 de dezembro é uma constante convocação para a unidade física e cultural"
Nossa identidade
Criada a polêmica em torno do 19 de dezembro, data da nossa emancipação política, se é ou não feriado, abre-se uma oportunidade para reflexão, a mais profunda possível, a respeito da nossa identidade. Quando do centenário da nossa autonomia tivemos, felizmente, no governo a figura de Bento Munhoz da Rocha como tradutor de todas as significações do acontecimento: 1953 foi o ano inteiro marcado por eventos locais, nacionais e internacionais em congressos e feiras. E tivemos também as obras como a do Centro Cívico, que teria servido de inspiração a Lúcio Costa que com Niemeyer construiria Brasília, mais o Teatro Guaíra e a Biblioteca Pública, que consolidaram a capital como centro político-administrativo do Paraná. Os feitos marcavam os nossos avanços como, por exemplo, o fato de o Porto de Paranaguá ter superado o de Santos como terminal cafeeiro e, nessa condição, erigir-se como o maior da especialidade em todo o mundo. Dá para imaginar como conseguimos isso com a precária Estrada do Cerne e conectada à da Graciosa com seus estritos limites de carga.
Pois, o 19 de dezembro é uma constante convocação para a unidade física e cultural, a primeira já alcançada e a segunda em andamento permanente, e deveria constituir-se em mais do que um feriado para cultuar a história e os nossos avanços, obra de todo o conjunto da sociedade, de brasileiros de várias unidades federativas e etnias de todos os pontos do universo. Momento também para avaliar os feitos e as omissões dos nossos governantes e de todas as nossas lideranças. Um momento, enfim, para festa, mas também de autocrítica.
Os três Paranás
O historiador Rui Vachowski desenvolveu a tese de três Paranás distintos que marcam a nossa diversidade: o do Sul e litoral tradicional, o do Oeste-Sudoeste de gaúchos e catarinenses e o do Norte de paulistas e mineiros, estes em função do miniciclo cafeeiro como doutrinava o economista Francisco Borja de Magalhães. Essa delimitação de espaços determinada por fluxos migratórios mais recentes, alguns épicos como a revolta de Porecatu que mostrou surpreendente arregimentação de sociedades agrárias e mais tarde o da revolução dos posseiros do Sudoeste em 1957, forma um mosaico equilibrado de tendências e vocações.
Há muito a Academia Paranaense de Letras em suas relações com universidades locais prega a difusão da história regional como fator de identidade e isso ficou facilitado com o processo de urbanização e também da unidade físico- territorial obtida especialmente no ciclo do neysmo, primeiro com Ney Braga e na sequência com Paulo Pimentel e outros que levaram asfalto aos eixos rodoviários na ampliação da estrada do café e nas ligações Oeste-Sudoeste.
Fatores bem recentes ampliaram o nosso grau de autonomia em relação a São Paulo, de quem somos uma continuidade, como a implantação das montadoras que reduziram significativamente a contingência de nossa economia figurar como de complementaridade à paulista.
Avançar sempre
Civicamente, houve uma novidade com a obrigatoriedade do canto do hino do Paraná nas disputas de futebol, aliás se repetindo também em outras unidades federativas uma forma de fazer do hinário um complemento das bandeiras que nos identificam. A referência é feita para mostrar que mais do que o feriado, no caso do 19 de dezembro, temos a obrigação imperiosa de valer-nos da celebração para na lembrança dos feitos históricos haver um sentido de comunhão daquilo que mais nos aproxima.
O governo estadual determinou que a data, para os funcionários, vigorasse no dia 26, um dia após o Natal, para não agrupar feriados e não prejudicar o movimento comercial. Como no caso da "Consciência Negra", mais importante do que a data em si é engajar-se no culto à expressão dessa presença em nossa formação comum como fizemos em Curitiba.





