LUIZ GERALDO MAZZA
Austeridade impositiva
Medidas de austeridade sempre foram olhadas como "reacionárias" e da direita na cuca do vulgo com a versão maniqueísta das coisas. E o seriam, segundo a doutrina dos que a justificam, e idiotas também têm, ao contrário do que se pensa, a sua teoria, porque sempre esses apertos acabam em desfavor do "social", outra obsessão dos dirigentes, tanto da presidente atual como do seu antecessor, lá atrás, José Sarney, cujo "teaser", sempre repetitivo, era "tudo pelo social".
O "social" é apelo para mostrar-se ligado aos excluídos, um batalhador da "justiça social", outra bandeira de todos os tempos. Todos são, portanto, ligados nos compromissos sociais da boca pra fora. O que é, afinal, o social no conjunto de um governo? O atendimento à sua intervenção na trilogia da saúde, educação e segurança, fundamentos básicos do Estado como tradução da "nação politicamente organizada".
No momento estamos vendo uma inclinação para a austeridade imposta claramente pelas circunstâncias que levam à baixa arrecadação de tributos, como ocorre nos três níveis de governo, e é curioso notar a similitude de tratamento que Beto Richa e Gustavo Fruet, governador e prefeito da Capital, dão ao tema com os cortes de gastos de custeio e promessas de redução de secretarias. Mas não se limitam a isso e buscam com a adoção do Refis formas de melhorar o caixa, com a percepção de acordos parcelados com contribuintes em atraso. A Dívida Ativa, tanto da prefeitura como a do governo, valem quase um orçamento, numa perto de R$ 5 bi e no outro mais de R$ 15 bi.
Fruet parece mais realista: fixa em 10% a economia do custeio e Beto, isso teoricamente, tenta chegar em 30%. Fruet cortou secretarias (agora mais duas) e o governador promete fazê-lo, apesar da baba excitada dos seus aliados a pleitear espaços no racha secretarial.
Discurso vitorioso
Ainda nas eleições presidenciais vimos que a bandeira do "social", mais estruturada capilarmente nos programas de transferência direta de renda, já que o desenvolvimento é zero, novamente se impôs com a artimanha de que seus adversários iriam cortá-las. O velho e primário cacoete de que o governo é dos pobres e a oposição dos ricos gera uma visão primária dessa bipolaridade, quase uma visão da luta de classes ao sabor das massas. E isso é tão antigo que remonta aos tempos de Getúlio Vargas e do Estado Novo e um dos fundamentos do populismo como prática política inafastável do nosso comportamento. Como ela sempre é vitoriosa e jamais cumprida e muito menos cobrada, essa despolitização contínua do eleitorado segue o seu malogrado destino rumo ao ceticismo para aqueles que pensam, não exatamente os referidos pelo deputado de Ponta Grossa, em sua comparação primária.
O arrastão assustador
Defendo a tese de que seria mais honroso se o governo, para evidenciar sinais de progresso, mostrasse significativos números de brasileiros que deixassem, por força do seu trabalho ou do desenvolvimento geral, o cadastro do Bolsa Família do que ficar citando como gesto de solidariedade os 50 milhões de beneficiários. Esse imobilismo não é meritório e ajuda a manter a caricatura do assistencialismo e nunca a dinâmica geral a que tanto se refere, em seus discursos, na suposta mobilidade das classes, em especial da média.
Ficou demonstrado, inclusive naquela falha burocrática da Caixa Econômica Federal que os governistas tentaram atribuir à oposição, no dramático arrastão de beneficiários às agências do banco federal o peso específico dessa forma de assistência na vida brasileira. O atraso no pagamento ou qualquer boato sobre suspensão é suficiente para uma revolta com jeitinho de revolução francesa.
Estamos vendo agora nas medidas de cautela de Beto Richa e de Fruet outra convergência: as restrições não podem jamais ferir a área social como se essa tivesse uma imunidade permanente a qualquer tipo de crise. Faltou-nos em nossa história o sofrimento da escassez mal vivido na Segunda Guerra, logo depois do "cracking" da Bolsa de Nova Iorque com a falta de mercadorias, o racionamento impositivo, as filas da madrugada para comprar pão e carne, como se dá hoje com os pais na luta pelas vagas escolares.





