LUIZ GERALDO MAZZA
Convite à reflexão
Apesar do tom de guerra final que a eleição presidencial assumiu, gerando o maniqueísmo do bem e do mal, projetados nos dois candidatos, visível no entredevoramento das redes sociais e num grau menor nos programas de tevê e de rádio, percebeu-se que estamos consolidando a democracia, posto que não agrade por vezes a patologia da má educação e da intolerância registrados. É claro que a beligerância persistirá acesa até a apuração do último voto dado o acirramento da disputa e o radicalismo que ganhou nos últimos dias em função do debate televisivo tido por muitos como decisivo.
Como sempre - e essa é uma deficiência que só o tempo há de corrigir - houve excesso de retórica e carência de propostas com a perda, que se dá em todos os níveis, de tempo em questões menores no marketing da exaltação pessoal e da "demolição" do outro. Apesar da complexidade e riqueza dos problemas do país o sentido personalista predominou e isso infelizmente atende uma perspectiva cultural bem nossa: valem mais os personagens do que uma doutrina, o homem providencial ainda é uma das nossas características, razão pela qual essa ideia de uma reforma política que priorize os partidos nada contra a correnteza das nossas mais enraizadas praxes.
E disso decorre outra deformação: entre o governo das leis, questão colocada por Norberto Bobbio num dos seus últimos livros sobre o porvir da democracia, e o dos homens há notória predileção pelo caudilhismo da tradição, seja com Getúlio Vargas, ou um sedutor como Juscelino ou um de corte populista como Luiz Inácio Lula da Silva.
O avanço real
O pouco apreço ao governo das leis - e isso foi testado duramente nos regimes do Estado Novo (1930 a 44) e nos anos de chumbo recentes, onde o predomínio da ordem derivava do autoritarismo de uma imposição incontestável - é que justifica a exploração da encruzilhada entre o bem e o mal a ser decidida hoje exatamente pelos candidatos encarnarem a providência, o horizonte possível e imediato. De outro lado a pouca relevância que o público empresta à patologia gravíssima da corrupção parece rejeitar como essencialmente indesejável alguém que defenda a austeridade e se recuse à ficção de um distributivismo generalizado, essa cornucópia permanente a lançar o maná bíblico às massas.
Apesar de tudo isso tivemos avanços justamente na parte institucional como a derrubada de Collor, o saque dos anões do orçamento, o sucesso da CPI dos Correios que chegou ao mensalão, queda da CPMF, todas evidentemente feitas contra a vontade do poder central, o que sempre oferece a esperança de repetir-se até por sua virtuosidade.
A gradualidade
Há uma questão de ritmo, a gradualidade e a segurança invocadas por Geisel, que se ajustam ao modo de ser brasileiro: o movimento das "diretas já" da emenda Dante de Oliveira mobilizou o país, mas não passou no trâmite parlamentar, conquanto tenha acumulado energia para um novo horizonte.
A muda no regime só foi possível pelo descontentamento de uma ala do PDS, que iria montar o PFL, com a vitória de Maluf contra o coronel Andreaza. Maluf já dera um drible nos milicos quando venceu o banqueiro Amador Aguiar na eleição à Prefeitura de São Paulo. Dissidentes portanto, vinculados ao estamento militar, é que tornaram possível a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, um tanto quanto esmaecida pela doença e morte do presidente e sua substituição por um outro do regime, José Sarney. Por aí se vê que militares ditaram o ritmo do retorno à democracia, conquanto prejudicados pelo peso das contradições internas, fixando o cronograma da própria Constituinte, o que os revisores da história, que não são poucos, jamais admitirão e subjugaram, inclusive, os grupos que ao longo do tempo tentaram refundar o golpe e infleti-lo à direita radical, a tal da revolução dentro da revolução, a que tantos se referiam.
Um ordenamento que prende José Dirceu e outros e que apura a roubalheira da Petrobras não deixa de ser uma garantia de que avançamos e avançaremos, ganhe quem ganhar.
De outro lado a pouca relevância que o público empresta à patologia gravíssima da corrupção parece rejeitar como essencialmente indesejável alguém que defenda a austeridade e se recuse à ficção de um distributivismo generalizado, essa cornucópia permanente a lançar o maná bíblico às massas.





