LUIZ GERALDO MAZZA
A batalha final
Há quem esteja olhando o pleito presidencial como um divisor de águas final na história do país. O acirramento da disputa e mais o empenho dos litigantes em desconstruir seus adversários marcha para um radicalismo, algo como um Juízo Final, como se estivéssemos no cruzamento derradeiro do nosso destino. Para os engajados, que hoje são muitos e têm motivos de sobra para assim se postarem, uma espécie de última chance para o Brasil está colocada e optar bem é imperioso, pois um erro será o Armagedon.
Essa dramatização é bem brasileira, já vivemos, várias vezes, esse tipo de situação e uma das mais intensas foi a de 1960 no embate ideológico entre Jânio Quadros e Teixeira Lott. É que aquele pleito exibia, à esquerda, o ideário do Iseb, Instituto Superior de Estudos Brasileiros, que fazia do nacionalismo a bandeira-chave e como seu complemento o trabalhismo. E isso se dava ao fim de uma campanha de todos os jornais liberais brasileiros em defesa da sacrossanta "livre empresa" e isso desde os esforços de Getúlio Vargas para ampliar o poder nacional com estatais como a Petrobras e a Eletrobras, o que os jogava em permanente conflito. Para esse esforço, em 1951, Getúlio se protegeu com o jornal de Samuel Wainer, o "Última Hora", causa mediata da campanha que sofreu e que o levaria ao suicídio.
Background da Guerra Fria
Esse cenário era nutrido pela Guerra Fria e a questão geopolítica da aliança ao Ocidente, e nesse esforço de ampliar raios de autonomia o Brasil era visto como auxiliar do outro lado, o Pacto de Varsóvia. Um dos teóricos do Iseb, Hélio Jaguaribe, assim descrevia o divisor ideológico: de um lado o liberalismo cosmopolita, eufemismo do que deveria ser o neoliberalismo, e de outro o nacionalismo trabalhista com essa ênfase para mitigar excessos do capitalismo.
Jânio, a UDN de porre, como argumentavam os liberais do porte de Milton Campos, candidato a vice na chapa, levou de roldão tudo com seu messianismo teatral. Um dos seus atos fortes foi a condecoração do Che Guevara, intuito de mostrar independência ante os Esteites, que marcaram o estilo tumultuário do seu breve governo interrompido pela renúncia que ocultava o anseio de uma volta nos braços do povo, um saque bem latino-americano.
Obviamente o cenário de hoje é diferente, mas reproduz lutas como as que a frente PSD-PTB encarou até mesmo na eleição de Getúlio como na anterior de Dutra e na mais consistente de todas, a obtida por Juscelino-Jango, que fecharia um ciclo. Essa era a esquerda possível em nossas práticas populistas.
Assim as tensões ideológicas eram mais precisas do que as de hoje, já que a raiz dos partidos em disputa é de origem socialdemocrata.
Pesquisas recentes mostram um fato radicalizante no empate técnico, ainda que com um leve viés favorável a Aécio Neves, o que não acontecera nos pleitos anteriores vencidos pelo PT com relativa facilidade, daí também o aumento do furor na desconstrução.
E a democracia?
Estamos consolidando o maior tempo de prática democrática no Brasil, mas os alinhados só pensam na conquista do poder e não no avanço ao longo do tempo no qual se percebe o ganho de governos diferenciados em renda, escolaridade, expectativa de vida, mortalidade infantil, o que na competição se limita a apurar com quem mais se ganhou, como o lulopetismo está fazendo.
Nossas deformações - a do homem providencial ou a mulher - aí aparecem nos dois lados como uma sentença: sem ele ou ela será o caos e isso está muito distante da realidade, pois eleições como as de Juscelino, Jânio e aquela anterior de Getúlio Vargas (ele encarava um mito nacional, o brigadeiro Eduardo Gomes), bem mais densas, não nos colocaram à beira do abismo.
Há muito de artificialismo nesse imaginário da política, que é a ideologia. A hora final está muito distante, mas já a enxergamos nas diretas já, na eleição de Tancredo, na Constituinte, na vitória de Lula e na queda de Collor.





