LUIZ GERALDO MAZZA
Os matizes
Como teremos, outra vez, um segundo turno com partidos da mesma origem social democrata, haverá um esforço para diferenciá-los, além do efeito-demonstração dos governos de FHC e do lulopetismo, embora Dilma prefira justamente farta e discutível teorização entre os dois períodos. Alguns cientistas políticos já estabeleceram o "diferencial" com a presidente que busca a reeleição na defesa de um modelo neodesenvolvimentista com forte presença do Estado e Aécio propondo um ajuste mais liberal.
Ambos têm raízes na esquerda brasileira, o que nem sempre quer significar muito, dado o sentido genérico que a ela se atribui, por não haver nitidez nas especificidades a que se ajustam e pelo fato de com o tempo esse campo ideológico estar, há muito, permeado pelo discurso liberal. É que depois das experiências nossas de repressão e resistência percebeu-se que a liberdade, até por nossas vivências se transformou num valor básico e não apenas um apêndice do ser burguês, como se dizia para ironizar.
O maior constrangimento, e isso vivido mais de uma vez, foi a postura dos dois lados, por temor da reação religiosa de católicos e evangélicos, adotarem posicionamento mais conformado em torno do aborto. Ao aborto opõe-se uma visão articulada muito semelhante a havida contra o divórcio no Brasil que só a obstinação de Nelson Carneiro a transformaria em causa humana, necessária, e por etapas iniciando-a com os direitos da companheira. Ocorre que a condenação do aborto ganhou densidade doutrinária com argumentos não apenas morais, mas também centrados na biologia e, é claro, na transcendência.
Por aí se vê que o oportunismo para não perder esses votos empobrece e tira a dignidade. Se não podemos aspirar algo que é marca de civilização, mesmo dentro da Itália e no convívio com o Vaticano, o debate, desde logo, é falso e não tem sequer a dialética dos tempos da Guerra Fria à qual com a riqueza do "mix" das questões enfocadas o confronto se submetia.
Murchou
Os adesistas do PMDB tinham razão quando profetizavam que com Requião a bancada estadual cairia. Só que a solução apresentada (botar o partido no condomínio de 18 legendas) também não impediria a queda, ainda mais com a hipertrofia do fenômeno Ratinho Júnior. De 13 integrantes a bancada caiu para oito e agora os dois lados se interrogam para ver quem tinha mais razão: a queda parecia inevitável. Obviamente alguns deles, dentre os quais o mais atilado é Romanelli, acabam aproveitados no futuro secretariado.
Dois flancos
Com o segundo turno a ginástica maior será do governo porque enfrenta a crise econômica, para a qual a terapia se acha em esgotamento, e de outro lado a hipótese concreta de vazamentos dos relatos de Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef sobre o propinoduto da Petrobras. A blindagem de Dilma Rousseff, que até agora funcionou, pode sofrer avarias.
Mas o PT, em termos nacionais, respondeu bem ao desafio da mobilização e com vitórias surpreendentes como as de Minas e da Bahia.
O júri
A luta pelo júri de Ribas Carli, que se enrola há cinco anos nas teias do Judiciário, transformou a cruzada de Cristiane Yared em causa política - a sociedade civil tentando se impor ao poder - e com forte e obstinado conteúdo doutrinário, algo incomum nas demandas políticas. Daí o fenômeno da votação obtida por ela, a mais votada, da Câmara Federal com 200 mil sufrágios.
Folclore
Destinos eleitorais diferentes: Fruet, ganhador da eleição na Capital, apagado na campanha de Gleisi e o derrotado, Ratinho Júnior, despontando como um fenômeno com mais de 300 mil votos para deputado estadual, protagonista dos próximos lances da política estadual. A recuperação de Ratinho era esperada, já a de Gustavo Fruet, ainda mais com a crise financeira, um mistério.





