Estado de espírito
Havia um questionamento severo nos anos cincoenta sobre se a burguesia era apenas um estado de espírito. Isso vem a propósito do fascismo ocasional para justificar uma atitude como os ataques desferidos pelo governo à Marina, pois afinal eles não são assim durante todo tempo mas em função das circunstâncias e do receio de antecipar o ciclo de poder, causa geratriz da paranoia. Já foi o fato diagnosticado: temia-se o que o PT faria no governo e percebe-se hoje que ele estava mais preparado para entrar do que para sair.

O PT preferia a polarização antiga com o PSDB e essa agora com um dos seus quadros mais clássicos, o da seringueiria ecologista, o coloca em pânico a ponto de valer-se de argumentos pesados que jamais utilizou contra tucanos e o pior é que se mostra abismado com as respostas às suas agressões como a do relato de Marina sobre a experiência da fome em família como contestação à afirmação de Dilma de que acabaria com os programas de transferência de renda.

O fascismo, como o ser burguês, pode decorrer de um estado de espírito. Quando tivemos o massacre do Carandiru, grande parte da população, condicionada pela falta de segurança, o apoiou, como tal se daria agora no Paraná com a endemia das rebeliões presidiárias tratada não pela via das negociações e sim por via repressiva.

O quadro psicossocial típico do momento é o da justiça com as próprias mãos, a prisão e o manietamento do adolescente infrator amarrado a um poste eregido à condição de pelourinho, o linchamento. Esse clima chegou à campanha e pelo jeito vai durar e muito: a febre é alta e a compulsão para quebrar de uma vez o termômetro é muito forte. O que não impede de os atilados de repente espatifarem sorvetes na testa, quem sabe para refrescar.

Redundância
Beto Richa anunciar que vai se dedicar à campanha e os deputados entrarem em recesso é como chover no molhado: redescobrir o encanto e a sedução da rotina, a tapeação como virtude.

Atropelamento
Um Vietnã o número de atropelamentos: 4 mil ao ano no Paraná. O dístico é da campanha de reeducação do trânsito e que encontrará seu ponto alto, a 22, afinal o dia sem carro. Na Capital a avenida Sete de Setembro é a recordista.

Moncloa
A cada vez que temos eleições acirradas há a lembrança da montagem de um pacto como o de Moncloa que modernizou a Espanha numa composição nacional. Pelo jeito algo parecido precisa ser estabelecido como ajuste para por fim à tensão presidiária. Na penúltima rebelião houve um encontro de dirigentes de presídios do qual se tentou extrair um acerto e que nada trouxe de novo a não ser outra e conturbada rebelião em Piraquara. É claro que seria desejável um pacto nacional para todas as questões brasileiras, as resolvidas ou por resolver. Mas o nosso horizonte imediato reclamaria um pacto menos ambicioso e que devolvesse outra rotina nos nossos presídios e que não houvesse tamanha distância entre a teoria, essa do modelo penal paranaense, tão paparicado, e a praxis hedionda, essa incapaz de apontar como será o dia seguinte.

Folclore
Há quem entenda que os malabarismos de Requião se encontram nos estertores de uma fadiga do material, de um estresse, e ontem novamente ele expôs a face mais primitiva na entrevista da Globo no aberto desrespeito ao repórter Sandro Dalpícolo. Ocorre que há um segmento do eleitorado que acredita nessa versão de herói de história em quadrinhos já explorada por Fernando Collor, daí a identificação com o tacape e o taca-lhe o pau.

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