"A acomodação dos líderes e do seu entorno dos estafes e da militância deixou esse clima de apatia que aí está"



O Paraná esquecido

É fácil profetizar algo por tradição em nossas eleições: mais uma vez se perde a oportunidade de fazer um check-up em nossa realidade e além disso propor terapias aos nossos males crônicos. Nossos políticos têm feito desse ofício primordial para a vida da comunidade um desperdício.
Não se faz mais uma eleição com o vigor da havida entre José Richa e Saul Raiz e muito menos da encarada por Alvaro Dias e Alencar Furtado quando temas doutrinários foram escancarados. É verdade que se tratava, principalmente a primeira, de uma ruptura na rotina da consulta aos colégios eleitorais, razão pela qual a frente que apoiava o candidato vencedor tinha um espectro que ia do ultravioleta ao infravermelho. Havia também as diretrizes dos postulantes a cada um dos problemas paranaenses. Na segunda eleição houve uma composição entre direita e esquerda, obviamente supostas, tanto que Alencar Furtado, cassado pelo regime militar, tinha como vice Jaime Lerner e Alvaro era acompanhado por Ari Queiroz que vencera o embate no PMDB com Maurício Fruet, levemente à esquerda.
Não poucas pessoas de formação técnica e humanística montaram os programas dos dois candidatos nessas eleições vencidas pelo PMDB. Esses "papers" eram devorados pelos estafes e fundamentavam, doutrinariamente, as posições que seriam tomadas nos debates, palestras e programas da justiça eleitoral. Que fim levou tudo isso? Teríamos sido tomados por uma fadiga do material, um estresse que nos afasta do pensamento para acreditarmos na singeleza das soluções de marqueteiros, algumas paupérrimas como a do "Voltar atrás nunca mais" eregida como estandarte chave da maior e mais acirrada disputa, a de 1985, entre Jaime Lerner, já um mito mundial, e Roberto Requião para a prefeitura da Capital? Não dá para comparar o vigor daquela campanha com as que se seguiram, aí incluída a celebrada vitória dos doze dias de Lerner contra Fruet.

Além do palco

Houve um sentido de arregimentação que fugiu aos figurinos. Por exemplo: José Richa não queria Requião como também teve dúvidas para a nomeação indireta de Maurício Fruet anteriormente na prefeitura da Capital. Um grupo econômico ligado a Richa montou o jornal "Correio de Notícias" e nele chegamos a fazer uma greve interna em favor da candidatura Requião. Isso dá a noção da capilaridade do processo que penetrava numa espécie de cogestão de um jornal richista, onde o desejo de participação obreira chegava ao ponto de contrariar o dono da bola. Era, enfim, a participação levada ao paroxismo em forma de motim.
Algo um tanto quanto revolucionário por tudo que tinha de intransigência e rebelião. Lembro também da dificuldade de conter os estafes, à direita e à esquerda, que figuravam no secretariado, onde o presidente da Associação Comercial, Carlos Alberto Pereira de Oliveira, via nada menos de sete comunistas carimbados, exageros sedimentares da Guerra Fria, todavia que enfatizavam um fervor ideológico hoje inexistente nesse processo liofilizado e pasteurizado de confronto eleitoral.
A Copel, dirigida por Ari Queiroz, vice-governador, foi palco de confronto em relação ao rigor das normas técnicas da empresa por causa do plano ambicioso de Richa de eletrificação rural que exigia, no entender da esquerda, uma certa flexibilização para baixar custos. Levantou-se, então, a tese do posteamento com madeira tratada o que mexia com o monopólio dessas decisões. O fato é que os fornecedores do posteamento para não perderem a escala crescente do negócio decidiram baixar o preço da mercadoria.
Da mesma forma que o uso do cachimbo deixa a boca torta, a acomodação dos líderes e do seu entorno dos estafes e da militância deixou esse clima de apatia que aí está e que nem a candidatura nervosa de Requião consegue empolgar, mas que pelo menos teve o mérito de mexer com o jogo de cartas marcadas pela tal dissidência do PMDB, bem menor do que se imaginava.

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