"Ninguém privatizou tanto quanto o PSDB, que todavia foge desse feito como se fosse um pecado inominável"



Direita com voz
Num país em que o esquerdismo genérico transformou suas teses em axioma chega a espantar que um candidato presidencial de alinhamento religioso defenda a privatização geral e irrestrita não apenas da sacrossanta Petrobras como dos portos e aeroportos. Trata-se do Pastor Everaldo, do Partido Social Cristão, que rompe o temor doentio de esquerdistas e também liberais até de pronunciar o verbo privatizar, intimidação e covardia ao mesmo tempo, que matou o PSDB no front com o PT por mais de uma vez. O celular na mão do tucano era uma arma letal das vantagens da privatização, mas ele a escondia, acuado.
Não é possível um diagrama em que se fale tanto em esquerda e de tal forma que ninguém se coloque à direita. Pode até não se tratar de uma revitalização do neoliberalismo, tão execrado mesmo pelos que o praticam, mas não deixa de constituir-se em novidade na codificação dos arquétipos eleitorais. É claro que ao referir-se especificamente à Petrobras ele, o pastor, a deseja ver substituída para sair das malhas da corrupção.
Ninguém privatizou tanto quanto o PSDB, que todavia foge desse feito como se fosse um pecado inominável, não tem coragem e inteligência para reagir ao cantochão condenatório como se viu com José Serra nas eleições. Pois é um desses feitos a que se refere o Pastor Everaldo como exemplo adequado: o da Vale do Rio Doce, que hoje é mais eficiente do que quando estatal e que paga impostos e, ainda por cima, royalties por suas operações. E atua com agudo senso de competição em escala mundial.

O essencial
O candidato do PSC repete o conceito de que a prioridade estatal está nos programas sociais de segurança, saúde e educação, isso sim obrigação do governo e não a aventura empresarial de provedor-mor. Justamente essa ação social, a que dá bases para a mobilidade de classes na igualdade clara de oportunidades, é que deve pautar as prioridades essenciais.
Citando um caso negativo como o da Petrobras, alvo de investigações da Polícia Federal, corroída pela corrupção, destaca a fragilidade provedora do Estado naquele tríplice fundamento na baixa qualidade do ensino em qualquer dos níveis, a vergonha dos hospitais desaparelhados sem remédios e sem pessoal apto às funções assistenciais e o descalabro na segurança em que é visível o aparato do crime mais avançado do que o da prevenção e repressão.

A demonização
A demonização de tudo que possa lembrar a direita certamente pode levar parte ponderável dos seguidores do PSC detestarem o enquadramento forjado pelas generalizações. O curioso é que na maior democracia, a dos Steites, a "new left", a nova esquerda do Partido Democrático está muito próxima do que chamam de direita no Brasil. É que a esquerda de raiz, a tida como marxista (mais citada do que lida como no caso de Maquiavel) tinha ódio, ao mesmo tempo, de liberais e do liberalismo. Por sinal que curiosamente as pregações da extrema direita do passado, expressa no integralismo, eram bastante afins com as da esquerda na rejeição aos liberais. Isso se dava na época dos totalitarismos do comunista ao nazifascista e derivações dos anos 30 e 40 do século passado.
Essa colocação pela privatização, ainda que feita por um postulante de perfil nanico, porque de um partido menor, desafia os demais contedores a uma reflexão em cima de temário maldito mais por força do oportunismo e da homérica ignorância do que por avaliação com um mínimo de método.
Quanto a essa história de amaldiçoar a direita temos de lembrar que nomes como os do filósofo Miguel Reale, o maior do Brasil, do jurista Santiago Dantas, do crítico Tristão de Ataíde, Alceu Amoroso Lima, e do bispo vermelho, Don Helder Câmara, vistos como de esquerda no pré 1964, eram oriundos da Ação Integralista, do seu quadro de orientadores no Conselho Superior, metamorfose ocorrida também aqui pela aldeia com vários militantes.

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