Rumo à anomia
A manifestação de ontem, que interditou estradas federais, em nome de objetivos vagos, que vão da reforma agrária à agricultura familiar, é nem um sinal dos novos tempos em que o princípio da liberdade vale mais do que o da autoridade. Sabidamente esses dois polos são convergentes como as duas faces de uma moeda: se um deles transborda, distanciando-se da vinculação, só poderemos ter duas coisas deformadas, o autoritarismo ou o liberticídio.

Bloquear estradas vitais, por várias horas, é algo que foge um pouco à rotina de interrupções com queima de pneus por passarelas na rodovia ou como protesto em defesa de vítimas da polícia ou ainda invasões. Trata-se objetivamente de um crime, previsto em lei, que deixa de ter essa tipificação pela prioridade concedida ao genérico e imperial direito de manifestação que se sobrepõe a tudo e a todos.

É o itinerário da anomia essa superposição que rompe todo o equilíbrio do ordenamento jurídico e que se alastra com maior facilidade em clima eleitoral: enquanto em Curitiba a prefeitura resistia a greve dos professores no zelo com a sustentação do modelo financeiro que no Estado foi demolido de Lerner para cá e governos subsequentes, em São Paulo o prefeito Haddad legalizava a invasão em Itaquera atribuindo ainda ao Movimento dos Trabalhadores sem Teto funções públicas na triagem dos interessados em ali morar, isso é, tornando a gestão leiga no campo habitacional.

A mente do público já anda viciada nesses exercícios de democracia direta, como se se tratasse de algo mais natural do mundo e boa parte dela encara até como legítima essa forma de conquista acima da lei e da ordem, sem as quais é impossível imaginar o convívio civilizado. O cortejamento servil a impulsos da massa é típico de ambientes populistas como o nosso e no caso de São Paulo o prefeito vetou os dois artigos que subordinavam a entrega das moradias ao cumprimento do cadastro da Secretaria de Habitação, isso é o respeito à fila consagrando o agir temerário como bom e justo.

Se não há segurança jurídica a anomia está instalada como quando um país perde a guerra, a ordem se estiola e os saques a supermercados se tornam comuns, como ao fato se refere o liberal alemão Ralf Dahrendorf em Berlim, abril de 1945, estertores da batalha, início da ocupação.

Consórcio
O prefeito da Capital, Gustavo Fruet, precisa retomar a tarefa de unificar o consórcio metropolitano do lixo, várias vezes tentado. É que ainda agora as 100 toneladas de resíduos de Curitiba que eram depositadas na Essence, em Araucária, passaram a servir o aterro sanitário de Fazenda Rio Grande, isso há mais de quinze dias. Urge uma solução de escala adequadas por maiores que sejam as dificuldades, como se viu anteriormente, no processo de licitação.

Sítio
A campanha de Requião nas redes sociais está em estado de sítio com o bloqueio do portal e também dos que o abasteciam por decisão do TRE. Site em estado de sítio é redundância para ninguém botar defeito.

Greve
Professores municipais de Curitiba deram seu recado por dois dias, decidiram retornar às aulas, mantendo o indicativo de greve e acreditando na mediação de vereadores, o que dificilmente acontecerá, pois a prefeitura acha que o Plano deverá ser gradual para não estourar o caixa. O impasse continua. Mestres pretendem invocar o Dieese para análise da situação orçamentária.

Folclore
No agito dos professores o prefeito sumiu. Quem ficou com a obrigação quase num sanduíche com os grevistas foi o Ricardo MacDonald. Afinal não se trata de tarefa tão difícil para quem tem esse sobrenome oferecer brioches, como fez Maria Antonieta, antes da guilhotina, para quem desejava pão.

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