As cavalgadas
O ambiente pré-revolução francesa do Canguiri volta à toda força na campanha eleitoral resgatando o período em que lá morava o governador Requião e se divertia de quadriciclos ou em cavalgadas.
Aliás, o Canguiri tem estórias de humildade como a de José Richa que lá habitou e por vezes se via até sob risco de picadas de cobras, isso sem falar nas goteiras que atingiam o seu quarto. Mas tem também as de opulência como a passagem por lá, e como simples visitante, do general Mário Gomes, a quem se acusava de ter comido todos os perus da granja e, é claro, superando tudo isso, os tempos de Requião.
Quem levantou a acusação contra o senador, relativa ao período de governo, foi, como se dá com a maior parte das denúncias, um seu ex-aliado, no caso o ex-deputado e ex-prefeito de Apucarana José Domingos Scarpellini, um dos mais importantes encenadores do Ferreirinha e da vinda do Baiano da Foice ao teatro eleitoral, o da primeira vitória.
Na verdade essa questão não se refere só à figura do hoje senador postulante pela quarta vez ao governo: ela mostra a fragilidade das instituições, já que isso não chega no Tribunal de Contas e muito menos no Ministério Público e fica dependente de uma eleição para ser enfocado, é claro tardiamente. Há uma omissão
sistêmica, uma leniência abrangente, que sustenta esses laços da cordialidade intrapoderes. Como o fato à época era considerado normal e não denunciável, tanto que a mídia a ele se referia como algo apropriado, só agora passa a ser visto como um possível ato de improbidade, já que os cavalos seriam dele, até ganhos de presente, mas a alfafa era pública, daí os cálculos que se fazem para ver de quanto seria o débito.

Quem quebrou?
Da mesma maneira que costumamos desconsiderar conquistas como feitos contínuos de várias gestões (redução de mortalidade infantil, aumento de escolaridade e expectativa de vida e acréscimos na economia) não temos o hábito de fazer o censo das crises pela continuidade. Assim, desde Lerner há sinais de colapso nas finanças públicas (a troco de que o secretário da Fazenda era ao mesmo tempo presidente da Copel, nossa principal joia da coroa, que se fez de tudo para vender?) e que se agravam nos governos de Requião e Beto Richa, que mantiveram o Estado agigantado e cada vez mais ineficiente e caro e demoliram o modelo de gestão financeira, causa geratriz da crise atual e motivo seguido dos vetos do Tesouro Nacional por infração a dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal. Beto Richa e Requião, quem quebrou? Essa parada deveria ser resolvida no primeiro turno. Os dois lados têm argumentos para ataque e defesa, mas é evidente que não se trata de um jogo da verdade e sim do poder de persuasão de cada um. Tentarão sugerir que tudo está bem no melhor dos mundos à maneira de Pangloss.
Essa pendência é mais aguda que a omissão de Beto Richa no caso Ezequias, aquele que recolutava grana da sogra coitada, que nem sabia ocupar um cargo de barnabé-fantasma na Assembleia Legislativa e mais relevante que os cavalos de Requião. Porque nessa pendência os dois entrariam perdendo, mais na defensiva do que no ataque.

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