LUIZ GERALDO MAZZA
Pobreza de quadros
As eleições reprisam, tanto a nacional como as locais, um drama à brasileira: ausência de sinais de renovação, mais fortes no discurso, na retórica, do que na listagem de candidatos. Há, por exemplo, uma crítica permanente à direção do futebol brasileiro da cartolagem dominante na CBF e, no entanto, ela é bem simétrica ao que ocorre na política. O mesmo traço oligárquico, que marca as nossas instituições, está lá no revezamento do compadrio e das negociatas.
Da mesma forma que os políticos em seus feudos, esses dirigentes parecem irremovíveis ainda que haja uma tragédia como a do revés na Copa do Mundo: são seres protegidos por um sistema decalcado da própria Fifa, cujo poder, como se viu, está acima de tudo, das leis e da Constituição. Muita gente acreditou ingenuamente que o vexame das goleadas da Alemanha e Holanda, superiores em tudo ao celebrado maracanasso de 1950, abrisse perspectiva para uma renovação ainda mais com esses êmulos de Spartaco, os atletas do Bom Senso, no exercício de uma pressão libertadora, essa sim de baixo pra cima como convém à ruptura e ao diagrama de uma revolução.
Foi preciso o impacto dessa derrota para que se imaginasse a mudança e isso porque a maioria não enxergava, inebriada pelo patrioteirismo, a perda de qualidade, e especialmente no sentido estrutural, do nosso futebol, visível em nossa desclassificação da Libertadores da América e no nível do campeonato nacional e da Copa Brasil, na baixa resposta do público nos estádios.
Os 'professores'
Nada mais eloquente, em termos até de oligarquias e falta de renovação, do que o fato de os técnicos do Flamengo (Luxemburgo), do São Paulo (Murici), Internacional (Abel) e Grêmio (Felipão) serem os mesmos de 19 anos passados. E cita-se esse dado pela circunstância de que se concede a essas pessoas poderes demiúrgicos de alquimistas e profetas e percebendo salários incompatíveis com a realidade do mercado e desses clubes falidos que agora recorrem ao governo para parcelar suas dívidas de bilhões, retrato da incompetência e cupidez.
Da mesma forma se assentam os enclaves feudais de Renan Calheiros, Sarney (ao menos anunciando sua retirada discreta de campo no qual já frequentou até essas inconsequentes esquerdas nacionais quando da Frente Parlamentar Nacionalista, bloco ideológico oposto ao do liberalismo cosmopolita), irmãos Cid e Ciro Gomes, Serra e Alckmin, FHC e os Neves. Aparentemente distante dessa analogia dá para perceber que no Paraná, de 1982 para cá, nada menos de 32 anos, tínhamos sempre membros da família Richa (o pai e o filho três vezes), os Dias (Alvaro e Osmar), Requião e Lerner a disputar o governo. Era e é a negação da sociedade supostamente aberta que tanto cultivamos.
Como os técnicos, esses são os "professores" da política, repetentes e repetitivos nas propostas.
Reprises
Quando Ney Braga assumiu, via Colégio Eleitoral, o governo pela segunda vez, houve um fato incrível revelador das nossas amarras oligárquicas que podem ser vistas no bom e no mau sentido: os chefes dos poderes Legislativo e Judiciário eram parentes, Fabiano Braga Cortes na Assembleia e o desembargador Marino Bueno Brandão Braga no Palácio da Justiça, primos de Sua Excelência quase reprodução do ocorrido nos anos 50. É que quando Bento Munhoz da Rocha foi governador houve um momento em que parentes seus ocupavam os outros poderes: Laertes de Macedo Munhoz, criminalista consagrado (chegou a ser cogitado para desenvolver capítulo na obra clássica de Nelson Hungria e Roberto Lira) no comando do Legislativo e o constitucionalista José Munhoz de Melo no Judiciário.
Considerando que Ney Braga, que aparece em 1954 como prefeito eleito de Curitiba, foi lançado na política por Munhoz da Rocha, de quem era cunhado de primeiras núpcias, tem-se uma ideia dos nossos vínculos parenterais e signos nobiliárquicos, embora os Dias sejam expressões da sociedade pioneira e Jaime Lerner das etnias. Já no primeiro governo do Paraná, o do baiano Zacarias de Goes e Vasconcelos, em 1854, havia no setor da educação um parente do atual senador Roberto Requião de Mello e Silva.





