Política Atualizado em 26/07/2014, 23:00
LUIZ GERALDO MAZZA
O Brasil nem sempre foi cauteloso em sua política externa e um dos pontos relevantes, em matéria de protagonismo, foi o da condecoração de Chê Guevara no governo Jânio Quadros, seguramente um dos motivos do seu desembarque pelas sequelas deixadas. Para acentuar o caráter independente dessa orientação num momento extremamente tenso da Guerra Fria a homenagem à figura-símbolo da revolução cubana punha o Brasil no cenário com seu potencial e as suas dimensões continentais. Já mais recentemente, sob Lula, a preocupação num momento em que o mundo se admirava com alguns dos nossos feitos sociais foi a de fortalecer o ideário latino-americano com aproximações fortes com Bolívia, Equador e Venezuela, a despeito de desapropriações da Petrobras e hostilidade a empresários brasileiros que lá operavam como empreiteiros.
Esses movimentos em direção à esquerda não ocultavam a pretensão de liderança quase hegemônica na América Latina, apesar de a Venezuela ficar, por causa de Chaves, como o extremo contraditório dos Steites, normalmente encenado em quadros da mais pura bravataria.
Obviamente a condenação recente a Israel deve ter sido bem pesada no jogo de xadrez das relações mundiais e seu tom forte encontrou resposta diplomática com a referência à nossa "irrelevância" e "nanismo". Convenhamos que a despeito das sutilezas de linguagem a pancada foi tão ou mais traumática do que o ato condenatório tomado em conjunto e num momento em que o padecimento palestino chocava a humanidade como em passado distante se deu com os israelenses.
Agora quem precisa se mostrar "relevante" é o Brasil, lembrando-se que também constou de nossa política externa, num dos momentos mais brilhantes, o reconhecimento do Estado de Israel e da intervenção de Osvaldo Aranha.
Muitas vezes a consequência mais forte dessas intervenções se dá em relação ao público interno. Em 1961 tivemos, além da consagração de Guevara, como fator de mobilização de forças nacionalistas e empolgadas com o andamento da revolução cubana, um agrado à esquerda que na campanha eleitoral se colocara a favor do general Lot na coligação PSD-PTB, uma caricatura da frente popular como a concebiam os europeus. Ora essa liturgia mexia com o Exército pela posição engajada do seu instrumental ideológico, dentre os quais o mais forte, a Escola Superior de Guerra e o rigor do compromisso com o Ocidente, vale dizer a democracia, em função da campanha dos expedicionários na Itália. E tanto é verdade que encerrada a guerra Getúlio Vargas foi apeado do poder como consequência dos pactos firmados e que teriam continuidade até 1964, embora o interregno de 1961, pós-renúncia, acordado pela mediação do general Machado Lopes que, temendo uma guerra civil com o agravamento da resistência de Leonel Brizola, facilitou entendimentos na condição de comandante do III Exército.
Um dos sedimentos dessa resistência - e isso é algo inegociável para o sentido deontológico do Exército e das Forças Armadas em geral - esteve no fato de Brizola ter armado a população civil nas articulações de resistência em Porto Alegre, tentativa esboçada em Curitiba também pelo então prefeito e general do Exército Iberê de Mattos.
Curioso é lembrar para efeito pedagógico que esses gestos heróicos e de martírio nem sempre produzem efeitos de curto prazo: em 1962, logo depois dos acontecimentos e do acordo com o parlamentarismo que tirava poderes de Jango, houve eleição e Iberê, candidato a deputado estadual pelo PTB, acabou ficando em desoladora suplência.
Mais tarde, em 1964, auge da crise institucional gerada pela gritaria das reformas e da resposta à direita com as Marchas com Deus e a Família pela Liberdade, chave para a intervenção militar, Brizola acrescentaria ao seu currículo, para ficar como inimigo número um das Forças Armadas, com a criação do chamado Grupo dos Onze com elementos de logística para o enfrentamento das forças oficiais num apelo à guerrilha possível.





