Bola, um ex-voto
O vexame do Brasil afunda Dilma e projeta Aécio? É o que pensam interessados mais diretos. Nem sempre o que ganha leva a melhor: João Goulart, campeão em 1962 e deposto, com apoio das massas, em 1964; Getúlio Vargas, vice-campeão em 1950 e suicida em 1954. Há os que ganharam quando perdemos como FHC em 1998 e Lula em 2006, enfim todas as situações podem confirmar ou negar o artifício.

Na verdade tratam-se de universos diferentes, autárquicos, no entanto capazes de com suas chispas mexer no humor da população como no caso da vitória de 1970 que ajudou a manter o astral do regime militar e especialmente de Médici que era identificado com futebol, Grêmio e Flamengo.

Sob a ideia-força de fazer o país crescer cinquenta anos em cinco ganhamos a Copa da Suécia num momento de triunfalismo inegável em 1958 (Brasília, as montadoras, usinas hidrelétricas) gerado por JK. Dificilmente se dá essa simetria como em 1970 com os PIBs chineses e a tortura em escala.

Obviamente se a situação da economia degradar (da mesma forma que o bom humor da população num momento da Copa deu quatro pontos para Dilma) esses fatores se entrelaçam e o desânimo interfere. Não se esgotaram recursos de manipulação (contenção artificial das tarifas de energia, combustíveis) e embora o governo não disponha de um Doutor Silvana como Delfim Neto há espaço para agir e enganar e ir empurrando as coisas com a barriga o que se facilita com a ausência de uma oposição forte e determinada.

A bola é apenas um ex-voto como aqueles que depositamos nos sacrários das igrejas milagrosas em forma de cabeças, braços e pernas de cerâmica, um testemunho claro de intervenções santas. Símbolo de unidade nacional, mas capaz de driblar, como Garrincha fazia, as intenções dos espertos.

Vaias
Vaia é legítima; palavrão de parede de privada de rodoviária, não. Getúlio Vargas, que era muito mais do que possam representar Lula e Dilma ou qualquer outro contemporâneo, foi vaiado. Pela escumalha no Pacaembu; pelos bacanas, a tal da elite branca, no Jockey Club do Rio no Grande Prêmio Brasil. Acidente de percurso. Às vésperas do suicídio, muita gente queria ver Getúlio prensado e depois do suicídio uma espécie de sentimento de culpa coletivo tomou conta das massas. Dou um testemunho pessoal: tinha discussões homéricas com meu pai sobre a evolução da crise desde o atentado contra Carlos Lacerda e na manhã da tragédia ouvi, ao me dirigir à faculdade de Direito, no alto falante, a morte do homem e sua carta-testamento. Voltei pra casa para consolar meu pai, um getulista ferrenho, e padecer com ele o acontecimento.

O vitimalismo é uma componente importante da nossa cultura política.

Legado
Está aí o legado da Copa: o Atlético Paranaense para receber a parcela de R$ 6 milhões tem que pagar R$ 11 milhões aos financiadores. O atropelo ontem de credores cercando a Arena da Baixada é um sinal. Outro é o dos R$ 2 milhões de multas de motoristas argentinos que vieram ao Brasil.

Pedagógica
Manchete de "O Globo" desses dias de reflexão: "Faltam 656 dias para os Jogos Olímpicos". Nada a acrescentar, plenamente didática, pedagógica.

Folclore
Requião vai usar a agressão, mas também a piada para os adversários. Ontem ele retratou o Ricardo Gomyde como o candidato a senador que trocou a foice e o martelo pelo jacaré da Lacoste. Muito parecido com o próprio que posa de algo que inexiste o socialismo do século XXI, o bolivariano, aquele cujo papel é explicar a ausência do papel higiênico à população.

mockup