LUIZ GERALDO MAZZA
Depois do Hexagero
Uma das primeiras manifestações na província depois do Mineiraço, no sentido da volta à realidade, foi a suspensão do match-treino entre Coritiba e Paraná Clube por causa do atraso de pagamento por três meses do time colorado, sempre às voltas com o mesmo problema. Por sinal que o Coxa também está com dívida apreciável o que o submete ao mesmo tipo de risco, entrevisto no caso do ponta de lança, Deivid, que se mandou entre outras coisas por causa do não pagamento do direito de imagem.
Imaginaram os craques da seleção brasileira, apesar da fama inegável de alguns deles, falando em "direito de imagem", logo eles que jogaram no lixo a nossa fama de pentacampeão? Na tradição do obreirismo radical brasileiro não há espaço para esse tipo de tergiversação "patronal" da mesma forma que jamais uma empresa poderá alegar seus prejuízos para negar participação nos lucros dos seus empregados. É o predomínio da "verdade" de um lado só.
É evidente que no caso do Coritiba, um Alex, por exemplo, poderia alegar esse direito pela circunstância de sua imagem estar em simetria com o que produz em campo e até fora dele por seus conselhos e afirmações e pelo símbolo que vai além do tempo presente. Poder-se-ia dizer o mesmo do Fred em relação ao escrete? Certamente não, mas se voltasse a fazer gols no Fluminense e a dar assistências claramente que sim.
Mutreta dissimulada
Acontece que esse direito de imagem é mutreta bem brasileira, jogada dos clubes para driblar vantagens dos jogadores para não constar em carteira a parte maior do salário. O jeitinho brasileiro, enfim, artes da canalhice cada vez mais criadora. Há quem acredite que a lavada alemã mude as raízes do nosso futebol, expulse os cartolas e a máfia da bola que tem até bancada no parlamento nacional e que encontra em Romário o Don Quixote a encará-la.
É mais fácil enfrentar a ditadura militar do que esse poder que se sobrepõe ao sentido liberalizante da Constituição de 1988 e que está enraizado em nossa cultura com o diagrama medieval das ligas e federações regionais gravitando em torno do poder da CBF, o Brasil que deu certo, conforme Parreira.
Dou aqui um testemunho dessa involução: nos anos 1950 meu professor de Direito Criminal, Ildefonso Marques, me convidou para assessorá-lo na Federação Paranaense de Futebol que presidia. O vice era Pedro Stenghel Guimarães. Depois vieram Vectogírio e Gêneris Calvo, Plínio Marinoni, uma elite de esportistas incompatível com a fauna atual.
Da mesma forma que a representação política do governo e do parlamento que também caiu de qualificação e isso com um esforço muito grande para evitar uma idealização do passado. É que o presente se mostra inaceitável e o futuro ainda mais tenebroso.
Da pedofilia ao agente
O estágio primitivo das relações de "empresários" é uma das afrontas: no passado era o temor dos pedófilos como supostos treinadores e assistentes de meninos encaminhados à carreira. Ouvi muitos técnicos, como João Saldanha, tratarem do tema, comuníssimo no passado. Hoje, em lugar desse tráfico sexual, algo mais sofisticado e pragmaticamente mercantil: os protetores e que mal enxergam os piás em campinhos de várzea ou nos parques públicos se aproximam dos pais para acertar compromissos e assinar procurações. Clubes que cultuam, com algum rigor, as suas divisões de base podem filtrar esse tipo de mediação e proteger seus interesses em torno da formação dos atletas e do seu capital humano.
Essa é apenas uma das muitas patologias, por sinal que o problema da formação do atleta se insere entre os necessários à reforma estrutural dos clubes, das federações e da viciosa e viciada CBF.





