LUIZ GERALDO MAZZA
Mitos pertinentes
Vamos lá: pelo que o Brasil vinha apresentando dá para espantar a derrota? Apenas a contagem elástica, que até poderia ser maior, mais humilha e até vilipendia do que surpreende. Fomos, por exemplo, em posicionamento e postura tática, melhores do que a Costa Rica (dois gols sofridos) ou a Argélia que encarou a Alemanha de igual para igual?
Ocorre que torcedor vive no plano imaginário, ideal, e entende até que se trata de uma heresia fazer tais analogias com a sacrossanta seleção, síntese de tudo que somos e hipoteticamente teríamos de melhor. Não enxergamos, por exemplo, em 1966 o pênalti claríssimo de Nilton Santos que caminhou agachado, como em corrida de saco, para sair do local da falta para fora da área, na partida contra a Espanha, isso sem falar na absurda anistia de Garrincha no último confronto após chutar, no jogo anterior, o traseiro de um adversário e ser expulso de campo. Dá para relacionar dezenas de situações semelhantes.
Muita gente ainda cultiva a ideia, inclusive no exterior, de que o time de Telê Santana era algo próximo da perfeição, esquecendo que os seus alas, tanto Júnior como Leandro, atacavam por seus flancos deixando um latifúndio aberto para as operações de contra-ataque do adversário.
Há outras amnésias: o titular da seleção de 1958 da ala direita era De Sordi e Djalma Santos seu reserva. Pois o homem de Bandeirantes só não jogou a partida final e ainda assim o maravilhoso Djalma foi escalado na seleção da Copa. Tem sentido?
Trauma, às vezes, é solução para uma patologia: a goleada, de anteontem, fez esquecer a tormenta que injustiçou os craques do Maracanazo, especialmente o goleiro Barbosa. O Uruguai mereceu vencer por armar-se bem na defesa e por ter um líder como Obdúlio Varela a operar como regente de orquestra. Ocorre que em nossa mente há a lembrança da goleada de 6 a 1 na Espanha contra quem a celeste empatara.
O culto ufanístico vem desde 1938, quando criamos a lenda de que o pênalti que Domingos da Guia cometera no Piola da Itália (ele agrediu o atacante dentro da área com a bola distante das imediações) poderia dar margem à anulação do jogo, o que rendeu passeatas no Brasil, estimuladas pelo Gagliano Neto, uma espécie de Galvão Bueno da época e com muito áudio e nenhum vídeo, também ufanista e patriota.
Merchandising
Há várias formas de explorar uma Copa, apesar da vigilância da Fifa: um deles, a rede de lanchonetes Karina foi em cima de provocações em cima da Argentina, pois cada gol sofrido por ela dava direito uma rodada de chope que ainda prevalecia para a semifinal de ontem. Aliás isso deve ter repeteco da parte deles como aquele anúncio da Skol, bem humorado, em que prendem os hermanos num contêiner e os mandam para bem longe.
Bens de raiz
Candidato pobre mesmo é aquele que declara como bens de raiz os cabelos e os dentes. A relação de bens que o TSE divulgou deu margem a muitas discussões desde a variação patrimonial até detalhes sobre o valor dos bens listados. Há um esforço de políticos em geral para se mostrarem pobres ou discretos mormente aqueles que apoiavam invasões de sem teto em áreas públicas ou privadas. Há um carro antigo na lista de Requião com o valor de R$ 1 e redes sociais estão fazendo ofertas pelo título patrimonial dele do Clube Curitibano de pouco mais de R$ 4 mil e que vale hoje R$ 150 mil. Pode ser o valor histórico já que não se destina à venda.
O fato é que a maioria do povo não se liga nisso, que foi um avanço da Lei Eleitoral ao exigir a declaração.
Folclore
Magistrados e procuradores de Justiça argumentam que o auxílio moradia ajuda a impedir a evasão de membros das carreiras em virtude dos salários. Nenhum deles se ajustaria aquele sucesso da MPB "Moro onde não mora ninguém". Se não houver ninguém morando não dá para imaginar o auxílio moradia.





